sábado, 27 de maio de 2017

Máquina de Guerra (War Machine) - em produção da Netflix, Brad Pitt traz a "empatia impossível" da guerra

Sátira sobre a ocupação dos EUA e da Otan no Afeganistão traz retrato mordaz de uma política de intervenção impossível de dar certo

O filme War Machine, Máquina de Guerra, produção do Netflix do diretor David Michôd, trata de um tema tratado quase à exaustão no cinema norte-americano. A guerra ou as guerras são alvo constante de películas, muitas delas trazendo críticas a posteriori que no calor da dita batalha são sufocadas ou apenas sussurradas, já que toda a engrenagem midiática que lhes dá suporte quase não permite o contraditório. Nem por isso, deixa de ser um filme interessante.

Agora, o campo de batalha é o Afeganistão, invadido pelos EUA em 2001, e o fio condutor da história é um personagem real, o controverso general Stanley McChrystal, comandante das forças dos EUA e da Otan no país, durante parte da gestão Obama. O militar era defensor da teoria da "contra-insurgência", estratégia considerada de sucesso levada a cabo no Iraque por outro militar considerado herói estadunidense, David Petraeus. Em linhas gerais, consiste em combinar equipamentos de alta tecnologia com o uso de força intensiva de tropas em solo, no qual um contingente massivo de soldados passa a conviver com a população local com o objetivo de auxiliar na construção um novo governo, assumindo funções "diplomáticas" (ou colonizadoras) e exercendo um papel político antes reservado somente a civis.

Obviamente que as condições próprias da situação do Afeganistão eram diferentes das do Iraque, e o "sucesso" da ação é mais que questionável, mas Stanley McChrystal era alguém convicto nas suas crenças e, além disso, sem papas na língua. Foi uma reportagem da revista Rolling Stone que acabou decretando sua queda. Obama não gostou nada das declarações do general e de assessores desancando a linha de ação do governo, figuras de sua administração como seu próprio vice-presidente, Joe Biden, e acabou substituindo o comandante justamente por seu mentor, Petraeus.

Como se chega a esse ponto é a história que o filme conta, e isso não é exatamente um spoiler, já que desde o início (e a própria história da ocupação no Afeganistão se encarregou de mostrar), trata-se de uma guerra impossível de ser vencida. No entanto, ninguém contou isso para o general Glen McMahon, vivido por Brad Pitt e que é, na verdade, McChrystal. O diretor australiano explicou que a criação do fictício comandante militar, “que não se parece em nada com o McChrystal real”, se dá porque a obra não foca em “nenhum indivíduo concreto, mas sim sobre um sistema e o particular comportamento dos militares nesse sistema”.


Esse teor de crítica mais ampla permeia o filme inteiro, mas também é difícil despersonalizar a história tendo um protagonista com a força de McMahon. A interpretação de Brad Pitt consegue um equilíbrio perfeito entre a caricatura, que muitas vezes distancia o espectador do personagem, e o homem que poderia ser qualquer pessoa que você conhece. As cenas em que o general corre solitário em seu exercício diário remetem, aliás, a Forrest Gump no jeito de correr do militar e também nas características que poderiam unir ambas as figuras: um alheamento da realidade aliado a uma obstinação que perderia o sentido não fosse a própria ideia fixa.

Embora conte com o apoio irrestrito de uma equipe leal, em sua saga, McMahon tem que convencer suas tropas a exercer um outro tipo de ação, em que a prioridade é evitar perdas civis para que não haja mais insurgentes se aliando aos talibãs e exércitos locais que combatem as forças ocidentais e do governo local. Para executar tal estratégia, precisa convencer seu próprio governo, que sofre com o desgaste de uma guerra que àquela altura, em 2009, já durava nove anos e era contestada pela opinião pública, a enviar mais tropas. Tem também que fazer o mesmo tipo de trabalho com os países-membros da Otan.

Boa parte da narrativa se dá nesse trabalho de convencimento do general, com seus soldados, com representantes diplomáticos, mas nunca em relação a si mesmo. Ele não duvida dos seus métodos, acredita que tudo se trata de uma questão de liderança e do jeito certo de se fazer. Quando questionado, muitas vezes não tem respostas para as críticas que sua missão recebe, mas isso não o abala. Embora tenha um tipo de ação que possa parecer orientada de forma distinta de outras celebrizadas pelas Forças Armadas norte-americanas, seu objetivo é o mesmo: vencer a guerra. A forma como vai conseguir a vitória não tem necessariamente um viés humanitário. É só estratégia.

Uma das cenas mais emblemáticas se dá quando McMahon se encontra pela segunda vez com o presidente afegão, Karzai, vivido pelo sempre ótimo Ben Kingsley. Enquanto o presidente o recebe em uma cama, gripado e assistindo à comédia Debi e Lóid, o general diz precisar que o mandatário exerça sua liderança. Ele, ironicamente, responde que já está fazendo isso: "Estou indisponível. Estou indisponível tanto para você quanto seu próprio presidente". A visita do militar ocorre para pedir uma autorização formal a uma operação que será executada em Kandahar. Novamente, Karzai é sarcástico. "Tem minha autorização, general. Ambos sabemos que eu nunca tive poder para tal. Mas agradeço por ter me convidado para participar do teatro de tudo isso."

O cinismo com que o presidente trata da situação é a evidência de que qualquer exercício de empatia entre um país invasor e um povo dominado, ainda que se use o eufemismo da "parceria" (hoje muito utilizado também em relações entre patrões e empregados), é impossível. Tais alianças se dão em relação a pequenos segmentos abastados, muitas vezes tão alheios à própria realidade como o personagem de Brad Pitt. A narrativa dá pistas disso o tempo todo para o protagonista, que, preso em sua bolha, pessoal e de seu grupo, teima em não ver.

Como relatou o diretor, a história tem como um dos objetivos mostrar que figuras como McMahon são úteis ao sistema, o que vai ficar evidente de forma pouco sutil no final do filme, não sendo, de fato, autônomas em suas próprias trajetórias. Caminhando no fio da navalha, por vezes a obra tem um ritmo lento, se perdendo um pouco no didatismo excessivo e deixando uma estreita margem para interpretações diversas, o que enfraquece um pouco a história. Mas não chega a comprometer o resultado final, um retrato mordaz de uma guerra impossível de vencer. Qualquer semelhança com outras ações do governo dos EUA como a guerra à drogas, aliás, a qual muitos acreditam, como o general, que o problema seja a "dose" fraca da ação, não é mera coincidência.

Além de Brad Pitt, o elenco conta com Anthony Michael Hall, figura de filmes de John Hughes como Clube dos Cinco e Mulher Nota 1000, e protagonista da série O Vidente, um personagem essencial na trama, já que dá o suporte "bélico-psicológico" necessário ao protagonista. Outro ator celebrizado em um filme de Hughes, Alan Ruck (o Cameron de Curtindo a Vida Adoidado), faz Pat McKinnon, um dos funcionários do Departamento do Estado que antagoniza com o general. "Você não está aqui para vencer. Você está para limpar a bagunça", diz a certa altura. Sinceridade não falta aos personagens. Ao menos, no privado, nunca no público. Está aí o pecado capital de McMahon.



Máquina de Guerra (War Machine)
Estados Unidos (2017)
Diretor: David Michôd
Elenco: Brad Pitt, Tilda Swinton, Topher Grace, Will Poulter, Ben Kingsley, Anthony Michael Hall e Emory Cohen
Duração: 2h02
Cotação: 6/10
Disponível no Netflix


sábado, 20 de maio de 2017

Os Parecidos - filme mexicano com várias referências em um desenrolar comum

Isaac Ezban é um jovem diretor mexicano, de 31 anos, que se tornou célebre pelo filme O Incidente, feito em 2014. Um ano depois, filmou Os Parecidos (Los Parecidos), que denota seu apreço pela ficção fantástica, com diversas referências a gêneros, diretores e obras dos anos 60.

O filme se passa todo em uma estação rodoviária em 2 de outubro de 1968, dez dias depois de o México ter sediado os Jogos Olímpicos. O dia em si é mais simbólico ainda: foi quando ocorreu o Massacre de Tlatelolco, ocasião em que o governo do país comandou uma brutal repressão contra estudantes de diversas partes do país que protestavam na Plaza de las Tres Culturas. Há diversas versões para o número de vítimas daquele acontecimento, que muitos estimam entre 200 e 300 mortos, enquanto que fontes oficiais anotaram 40 mortos e 20 feridos.



Impossível não ver, ao final do filme, que tal pano de fundo não é à toa, e o filme também é uma parábola que se relaciona a isso. Mas tal referência não é essencial para ver Os Parecidos, que bebe direto na fonte de um dos principais seriados da televisão dos EUA no final dos anos 50 e parte dos 60, Twilight Zone, ou Além da Imaginação no Brasil. Desde a narração em off no início e no fim, passando pela própria natureza da narrativa, a obra de Ezban homenageia os anos 60 no próprio uso das cores, que variam de acordo com a situação dos personagens. Há também menções explícitas ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, com a trilha sonora sendo quase um personagem da história, e uma cena que remete ao clássico Psicose.

No início, um gerente de manutenção está preso em uma estação rodoviária esperando por um ônibus que vai até a Cidade do México, atrasado já há quatro horas em função da tempestade que atinge o local. No caso, é uma remissão direta a um episódio de Twilight Zone chamado Mirror Image, em que o cenário e a situação são bem semelhantes. Mas o desenrolar da trama é outro. Ao chegarem outras pessoas no local, alguns passam a sofrer desmaios e sintomas semelhantes a ataques epiléticos. E todos começam a especular (mais que investigar) aquilo que está acontecendo.

O clima de mistério e dúvida envolve quem assiste. Como nos filmes de suspense dos anos 60/70, em que você se debruça para saber qual o papel de cada personagem na trama, o espectador vê uma história na qual não sabe de pronto quem é o protagonista e o que de fato está por trás dos acontecimentos que se sucedem. A condução da direção, junto com a trilha sonora e a atuação segura do elenco, prende a atenção todo o tempo.

Os problemas começam justamente quando a origem dos fatos é desvendada. Além de ser uma solução que fica mais para o clichê do que para a referência/homenagem, a narrativa fica arrastada, algo óbvia, e o suspense, que era a tônica até então, dá lugar a um embate enfadonho. Algumas falhas de roteiro aparecem, mas isso não é o problema principal. A questão é que o filme parece ter acabado bem antes do fim. E com uma solução longe de ser das melhores.

Ainda que haja boas sacadas e momentos interessantes, Os Parecidos peca no principal e deixa a impressão de que ver um episódio do Twilight Zone talvez seja mais produtivo que ver o filme.

Os Parecidos (Los Parecidos)
México, 2015
Direção: Isaac Ezban
Elenco: Luis Alberti, Carmen Beato e Fernando Becerril
Duração: 1h27
Cotação: 5/10
Disponível no Netflix




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Amante a Domicílio (Fading Gigolo) – John Turturro celebra Woody Allen

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Mercy (2016) – produção original do Netflix aposta no “parece mas não é”


“Por cinquenta dos meus 82 anos, de 6 a 8 horas por dia eu só ouvi queixas familiares. Ninguém conhece o lado sombrio da família melhor que eu. Sinto-me plenamente autorizado a falar mal dela, o que tem de ruim não está escrito. Ela é o eixo do conservadorismo, sim.” Era assim que o psicanalista José Angelo Gaiarsa, falecido em 2010, definia, em uma entrevista, sua experiência profissional relativa à família como instituição. Se ele tivesse assistido ao filme Mercy (2016), produção original do Netflix lançada mundialmente em 22 de outubro, certamente reforçaria sua visão.

O filme se inicia com a reunião de quatro filhos de Grace (Constance Barron), uma doente terminal, em tese para que se despeçam da mãe. Mas percebe-se logo que a ideia ali entre eles é discutir a questão da herança que ela deixará. O marido, George (Dan Ziskie), também demonstra ter preocupação com o dinheiro, fruto da morte do primeiro marido dela, pai de dois dos filhos de Grace.

Com esse contexto, durante quase meia hora o que se desenha é um drama familiar de caráter mais introspectivo. Os diálogos entre os personagens são secos, desprovidos de quase qualquer afeto, assim como suas reações à situação da matriarca. O cenário fica ainda mais complexo quando a família descobre uma maleta dada por um médico a George, que daria fim ao sofrimento de sua esposa.

O ponto de virada do filme acontece justamente depois dessa meia hora. A película se torna um suspense no qual o foco são mascarados tentando invadir a casa. O ritmo se torna mais rápido e a história até certo ponto é contada sob dois pontos de vista diferentes, com o objetivo de explicar o destino de cada um dos personagens principais.



Passados os 87 minutos, percebe-se que a verdadeira intenção do diretor Chris Sparling, que também é roteirista do filme, é mostrar ao espectador que ele, como é dito a certa altura para a namorada de um dos filhos, está enganado a respeito do que acontece. Quando esse tipo de narrativa é bem conduzido, tudo bem, mas quando não, quem assiste pode até se sentir ofendido com o rumo que a história toma…


Mercy (2016) tem um problema de origem de não saber o que quer apresentar além do “parece mas não é”. Quando tem a parte de drama, dá impressão de querer aprofundar a trama e apresentar os personagens de forma mais interessante. Mas logo entra a parte de thriller e praticamente não há tempo para existir qualquer envolvimento com os personagens do filme. Todos ficam com um aspecto quase caricato, superficial, até porque torná-los mais densos não é uma prioridade da produção.

Ao fim, a impressão que dá é que o importante é a “pegadinha”. Uma pena. Se você quiser assistir a uma boa produção original do Netflix, confira 7 Anos. Já Mercy é por sua conta e risco…

Mercy (2016)
Direção: Chris Sparling
Elenco: James Wolk, Caitlin FitzGerald, Tom Lipinski.
Nacionalidade: EUA
Duração: 1h27
Cotação: 4/10
Disponível no Netflix

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing That Lives in The House) - filme mais pretensioso que artístico

Produção original do Netflix que estreou no Brasil no último dia 28 de outubro, o filme O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing That Lives in The House) é o segundo longa do diretor Oz Perkins, filho de Anthony Perkins, imortalizado como Norman Bates do filme Psicose. Ele chegou a interpretar o mesmo papel do pai em Psicose 2 (1983), quando fez o assassino em seus 12 anos de idade.

Perkins seguiu em sua carreira de ator até 2010, quando estreou também como roteirista do filme Removal. Em 2014, também assinou como roteirista a película Dinheiro Sujo Cold Comes The Night e no ano seguinte estreou como diretor em The Black Coat’s Daughter (February), cujo roteiro também é seu. Para evitar problemas de distribuição que afetaram seu longa de estreia, conseguiu fechar com a gigante do streaming a produção de sua segunda obra.

I Am the Pretty Thing That Lives in the House conta a história de uma enfermeira, Lily (Ruth Wilson, de The Affair), contratada para ser cuidadora de uma antes famosa escritora de contos de terror nos anos 1960, Iris Blum (Paula Prentiss), a única moradora de uma antiga casa. Logo ela vai perceber que existe algo errado no local, chegando ao ponto de questionar se um dos livros escritos por Blum não traria uma história real, em vez de uma ficção.

O clima onírico, a mistura entre fantasia e realidade e a narração entrecortada, ora de Lily, ora da escritora quando jovem, poderiam fazer deste um filme bem acima da média para uma história com fundo banal e comum a muitas películas de terror. Mas muito cedo a narrativa se perde. O roteiro confuso coloca diante do espectador cenas excessivamente longas, onde o diretor parece querer valorizar a fotografia esquecendo da história em si, com outras, significativas, curtas demais. Mas não é a quebra de ritmo o que caracteriza o filme. Em seu todo, ele é arrastado (não confundir com "lento", já que muitos filmes com em esse tom são magníficos) e entediante.



Em função do clima reproduzido pela fotografia e a forma com que constrói a história, muitos compararam a obra de Perkins com algo da filmografia de David Lynch. Parece uma comparação inadequada, até porque os filmes do diretor de Cidade dos Sonhos têm ritmo e contam com detalhes que são importantes para as suas histórias, construídas de forma minuciosa. Em O Último Capítulo, mesmo a atmosfera e as narrações pretensamente poéticas parecem mais fruto de afetação do que arte em si. Ao contrário das obras de Lynch em geral, não consegue envolver quem assiste.

Como ponto positivo vale destacar a atuação de Ruth Wilson, em uma interpretação que tem pouquíssimo diálogos e muitas cenas que exigem uma expressividade que não falta à atriz.

O Último Capítulo (2016)
Direção: Oz Perkins
Elenco: Ruth Wilson, Paula Prentiss, Lucy Boynton.      
Nacionalidade: EUA
Duração: 1h27
Cotação: 4/10

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Amante a Domicílio (Fading Gigolo) – John Turturro celebra Woody Allen

A comédia dramática Amante a Domicílio (2014), disponível no Netflix, traz John Turturro no roteiro, direção e estrelando um filme em que revive uma parceria com Woody Allen, já vivida em Hannah e suas Irmãs (1985), mas agora com ambos em posições invertidas.

Um desavisado pode achar até que se trata de uma história de Allen, e não de Turturro, em seu quinto filme como diretor. As referências são inúmeras: desde o cenário onde se passa a história – um local judaico nos arredores do Brooklyn, em Nova Iorque – , passando pela trilha sonora repleta de jazz até o mais óbvio, a presença do diretor fazendo um papel que explora sua veia cômica. Ele aparece em cenas com suas tiradas habituais e também com ponderações recorrentes em sua filmografia, como quando fala a respeito da mortalidade com uma criança.

O filme começa com o fechamento da livraria de Murray (Woody Allen). Sem fontes de renda, ele tem a ideia de convencer seu amigo Fioravante (John Turturro) a fazer um ménage à trois com sua dermatologista Parker, vivida por Sharon Stone, que havia comentado com ele a respeito de seu desejo, e a amiga dela, Selima, personagem de Sofía Vergara (a Gloria Delgado-Pritchett de Modern Family). Assim, começa a trajetória de Murray como cafetão (o gigolô do título original) e de Fioravante como profissional do sexo.

A narrativa toma outra trajetória com a entrada em cena de uma viúva ortodoxa judia, Avigal, vivida por Vanessa Paradis. É a sua história particular responsável pelos momentos mais ternos do filme, nos quais ela luta contra sua própria trajetória, cuja sensualidade foi negada em nome da tradição. Um clichê, sem dúvida, mas que funciona bem muito por conta da bela atuação de Paradis.

O problema da película é o roteiro desigual de Turturro. Em alguns momentos as cenas são diretas, curtas, lembrando episódios de sitcons. Em outros, são mais densas, lentas, em especial quando envolvem Fioravante e Avigal. As separações rígidas na trama seguem nas sinas dos dois protagonistas. Enquanto Murray dá a Allen a possibilidade de exibir seu talento como ator de comédias, às vezes esquecido pelo seu trabalho como diretor, a parte “séria” do filme fica a cargo de Fioravante. Os lugares dos dois são severamente limitados quase o tempo todo.

O roteiro engessado seria menos problemático se bem costurado, mas a direção de Turturro não flui tão bem para tanto. Mesmo assim, além de cenas e situações divertidas, o filme se destaca pela força das personagens femininas. A descoberta de si mesma de Avigal e também a forma como são tratados o casamento infeliz de Parker e as frustrações de Selima (ainda que as duas últimas tenham um papel secundário na história).

Com defeitos, Amante a Domicílio consegue arrancar risos. Mas deixa a sensação de ser um filme menor de Woody Allen. Apesar de ser de John Turturro.

Amante a Domicílio (2014)
Fading Gigolo
Direção: John Turturro
Elenco: John Turturro, Woody Allen, Vanessa Paradis, Liev Schreiber, Sharon Stone, Sofía Vergara.
Duração: 90 minutos
Cotação: 6/10
Disponível no Netflix

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“7 Anos”: ótimo filme espanhol produzido pela Netflix discute a miséria humana

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

“7 Anos”: ótimo filme espanhol produzido pela Netflix discute a miséria humana

Produção original do Netflix, o filme espanhol 7 Anos (Siete Anõs), dirigido por Roger Gual, estreou na última sexta-feira, 28 de outubro, no catálogo do serviço de streaming. E conta uma história que explora os diversos dilemas dos relacionamentos e da própria existência humana tendo como ponto de partida uma situação-limite, na qual os personagens são obrigados a retirar suas máscaras tradicionais.

O filme começa com quatro sócios de uma empresa da área de tecnologia que se descobrem investigados pela Receita Federal espanhola. Como de fato eles cometeram crimes contra o fisco, terão que tomar uma decisão crucial: qual deles deve assumir a culpa, livrando os outros três da prisão e assegurando a sobrevivência de sua companhia? O título do filme se refere ao tempo de cárcere que o responsável irá cumprir.

Para tomar o que julgam ser a decisão mais justa, convocam um mediador. Deste ponto começa a se desenrolar a trama, praticamente toda em um cenário só, a sede da empresa, lembrando filmes inspirados em peças de teatro ou com tom semelhante, como Deus da Carnificina ou mesmo Doze Homens e uma Sentença.

Com o avanço do debate e precisando se chegar a uma conclusão, já que a possível ação do fisco e da polícia se torna iminente, começam a ser revelados os segredos e as verdadeiras aspirações e concepções de cada um dos sócios. São expostos não somente os pontos de vista deles a respeito de seus companheiros como também a forma como enxergam a si mesmos e suas visões de mundo.


O modo como a ação se desenvolve e é conduzida gera sentimentos ambíguos em quem assiste. Muitas vezes o sentimento será de empatia; em outros, o de repulsa, forçando também à reflexão sobre os temas que estão sobrepostos no filme e que são bastante atuais como a questão da prevalência do trabalho na vida cotidiana, que o leva a interferir – de forma muitas vezes desastrosa – no âmbito privado.

É interessante notar ainda que a empresa escolhida para ilustrar uma história ligada, na prática, à miséria humana, seja uma companhia do setor de tecnologia. Com o fenômeno das startups gerando enriquecimento rápido para alguns – criando situações de deslumbramento muito comuns, no Brasil, a alguns jogadores de futebol que vivem trajetórias similares –, surgem novas formas de trabalho e de profissionais mais autossuficientes, por vezes, crentes de que podem “ganhar o jogo sozinhos”. Algo simbólico em tempos de individualismo mais exacerbado.

No elenco, os atores colombianos Juana Acosta e Juan Pablo Raba, que viveu Gustavo Gaviria, o primo de Pablo Escobar, na série Narcos. Um belo filme brindado com ótimas interpretações.



7 Anos (7 Años, 2016)
Direção: Roger Gual
Elenco: Juana Acosta, Alex Brendemühl, Paco León, Juan Pablo Raba e Manuel Morón.
Nacionalidade: espanhola
Duração: 1h17
Cotação: 8/10
Disponível no Netflix

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Mercy (2016) – produção original do Netflix aposta no “parece mas não é”

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Comédia argentina Delirium traz Ricardo Darín rindo de si mesmo

Você já deve ter escutado, quando se fala em cinema argentino, de diversas piadas sobre a suposta onipresença do ator Ricardo Darín nos filmes do país. No ano passado, o Sensacionalista tocou no tema com a notícia fake "Argentinos pensam em lançar primeiro filme sem Ricardo Darín".

Obviamente, trata-se de um exagero. Mas é fato que boa parte das películas de sucesso dos hermanos tem como protagonista o ator de filmes como O Segredo de Seus Olhos e O Filho da Noiva. Tendo como base isso, mas não só, o diretor Carlos Kaimakamian Carrau fez em seu filme Delirium uma comédia interessante, com diversos subtextos que satirizam o próprio cinema (ou "novo" cinema) do país.

A trama se desenvolve a partir da relação de três amigos, Federico, que trabalha em um pequena loja de conveniências; Martín, que vive de pequenos golpes, e Mariano, que distribui panfletos na rua. Cansados da vida que levam, começam a pesquisar uma forma de ganhar dinheiro fácil, chegando à conclusão de que o mais fácil seria fazer um filme para se tornarem milionário. O ator para fazer com que a película alcançasse sucesso e gerasse renda não poderia ser outro: Darín.


ricardo darin protagonista do filme delirium
Darín, em cena de Delirium (Divulgação)

Esse é o ponto de partida da típica comédia de erros onde a trajetória caótica vai gerando situações cada vez mais absurdas, com pouco compromisso com a verossimilhança. Em meio à história, uma crítica à própria indústria do cinema, em especial o argentino, com piadas que muitas vezes têm mais relação com o cotidiano do país vizinho. Um exemplo é a sequência que se passa no Innca (Instituto Nacional del Nuevo Cine Argentino), onde o alvo é o mecanismo de financiamento de produção de filmes na Argentina. Talvez não seja exatamente um problema só portenho...

A "sociedade de espetáculo" também é satirizada e, de certa forma, protagonista da história, já que também conduz o enredo, contando com a participação de outras figuras célebres como a apresentadora Susana Giménez, no papel de presidenta argentina, e do ator Diego Torres, entre inúmeros outros.

Um filme original e divertido, mas que não vai fazer você dar gargalhadas, certamente. Até porque é uma comédia que usa do humor sombrio para rir de si mesma, aspecto destacado no papel de Darín, que faz de si um personagem que, em certa medida, corresponde aos esteriótipos vendidos a respeito dos astros do cinema. Vale a pena ver.



Delirium (2014)
Diretor: Carlos Kaimakamian Carrau
Elenco: Ricardo Darín, Miguel Dileme, Ramiro Archain e Emiliano Carrazzone
Nacionalidade: Argentina
Duração: 1h25
Cotação: 6/10
Disponível no Netflix.