terça-feira, 3 de novembro de 2020

O que ficou para trás (His House), na Netflix: quando a realidade é o verdadeiro horror

"Depois de tudo que passamos, depois de tudo que vimos que os homens podem fazer, acha que barulhos à noite me assustam? Acha que posso ter medo de fantasmas?" O questionamento da personagem Rial Majur (Wunmi Mosaku) a seu marido, Bol (Sope Dirisu), ambos protagonistas do filme O que ficou para trás (His House), produção que estreou na Netflix em outubro, dá um pouco a dimensão de cenários que seriam típicos de filmes de horror mas que se banalizaram de tal forma que não chegam a espantar a audiência dos noticiários. Ainda que sejam tragédias difíceis até de se descrever para quem as vive.

Boa parte destas histórias de terror poderiam ser contados pelos refugiados, invisibilizados, mas numerosos como nunca antes no planeta. Segundo dados dados da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), foram 79,5 milhões de pessoas deslocadas forçosamente de suas casas em 2019, o equivalente a 1% da população mundial. Um dos países que está na lista entre os que mais provocam deslocamentos de pessoas, tanto no plano interno quanto no externo, é também o mais novo país do mundo, o Sudão do Sul.

Após conquistar a independência em 2011, dois anos depois mergulhou em uma violenta guerra civil, e segundo a ONU são 2,3 milhões de sul-sudaneses vivendo em outros países, principalmente vizinhos, e 1,9 milhão que tiveram que sair de suas casas mas permanecem dentro das fronteiras. O filme O que ficou para trás conta justamente a história de dois refugiados que saem do país em busca da sobrevivência, indo parar na Inglaterra.

filme His House



No país europeu, após passarem um tempo em um centro de detenção depois de uma travessia marítima que vitimou diversas pessoas, entre elas sua filha, conseguem algo raro para poucos migrantes nesta situação. São aceitos em um programa governamental que condiciona sua permanência no país a uma espécie de "manual de boa conduta", recebendo auxílio por parte do governo e uma casa para morar.

Após chegarem na casa, em um bairro operário no qual tomam contato com o preconceito quase de forma instantânea, o comportamento do casal passa a ser distinto. Enquanto Bol busca se adaptar e abandonar inclusive hábitos da sua cultura, Rial se mostra incomodada e não aceita, demonstrando isso a seu parceiro. Além disso, aparições vinculadas à história dos dois começam a surgir na casa, aumentando o desconforto e o estranhamento.

Remi Weeks e a assimilação


A casa de cada um costuma ser o refúgio e o lugar seguro. E mudanças exigem sempre capacidade e vontade de adaptação. Não à toa que lares mal-assombrados são um grande filão do cinema de horror, já que se relacionam a medos e insegurança comuns a quase todos. Mas, no caso, de um refugiado, que perde o direito não só ao lar como de seu próprio chão, as assombrações tomam outro vulto.

O diretor do filme Remi Weeks, que também é autor do roteiro, falou em entrevista que o longa questiona justamente o quanto uma pessoa pode abrir mão para se adaptar a uma nova realidade ou buscar um recomeço. "Tendo crescido em Londres como uma pessoa negra, uma conversa que tivemos em nossa comunidade foi sobre assimilação, e quanto de você você desiste ou deixa de ceder. Esse é o ponto crucial da história", disse ele.

Esse conflito entre aquilo que os personagens, na verdade, não deixaram para trás, e sua nova realidade faz da casa um terceiro personagem que interage com eles durante toda a história. Os fantasmas que ali aparecem simbolizam toda a vivência que é impossível de ser esquecida pelos protagonistas, incluindo uma virada na trama que torna ainda mais palpável o tamanho de suas tragédias.

Entre a perturbação da consciência de um Raskolnikóv de Crime e Castigo, o próprio apego às origens e um outro horror diante do desconhecido, Weeks consegue manter a tensão em um terror que incomoda o espectador o tempo todo, mas mantém sua atenção e é capaz de despertar empatia mesmo perante ações pra lá de questionáveis. No horror que é produzido e mantido pela indiferença alheia, ninguém escapa.   



O que ficou para trás (His house)

Direção: Remi Weeks

Elenco: Wunmi Mosaku, Sope Dirisu, Matt Smith, Javier Botet, Cornell John, Emily Taaffe e Malaika Abigaba

Duração: 93 minutos

Nacionalidade: Reino Unido

Disponível na Netflix


domingo, 13 de setembro de 2020

O dilema das redes: documentário alerta para futuro sombrio que bate à porta

Produzido originalmente para a Netflix, o documentário O dilema das redes traz um tema que ainda é restrito a alguns nichos que, há tempos, vêm discutindo os impactos das redes sociais na vida das pessoas. Sob controle de grandes corporações como o Facebook, dono da plataforma homônima, do Whatsapp e do Instagram, e o Google, que além do principal site de pesquisas do mundo tem ainda o maior serviço de e-mail (Gmail) e o YouTube, tais plataformas mudam o modo de ser e de pensar de seus usuários, que mal percebem que estão sendo manipulados.

Não é à toa que a questão da privacidade online, o rastreamento de dados e a manipulação de algoritmos não chegam a ser um assuntos discutidos de forma mais ampla. Primeiro, corporações poderosas do ponto de vista financeiro e político conseguem interditar o debate em boa parte dos países. Em segundo lugar, é um tema que tem contornos técnicos e legais que nem sempre estão ao alcance das pessoas de um modo geral. E este é o grande mérito de O dilema das redes. Consegue colocar a discussão de forma didática, sem ser raso, e destacar a sua gravidade.

Diversas mudanças têm acontecido de modo tão veloz na sociedade, comparando-se a períodos históricos anteriores, que absurdos vêm sendo naturalizados e/ou relativizados sem que as pessoas se deem conta. E as redes sociais têm um papel importante nesse contexto. Seja porque condicionam as pessoas a desenvolverem uma espécie de dependência em relação a elas, ou devido ao fato de serem um campo ideal para manipulações que interferem no dia a dia e mesmo no cenário político de países inteiros, desde alguns nos quais o Facebook é praticamente sinônimo de internet (como era o caso do Brasil, em 2017) até outros em que redes como o Whatsapp se tornaram dominantes (novamente, o Brasil serve de exemplo).

O filme traz depoimentos de pessoas que participaram do processo de criação de algumas dessas plataformas e de suas principais ferramentas, o que traz credibilidade às informações e reflexões construídas. De uma forma geral, boa parte dos testemunhos dá conta até de boas intenções por parte das pessoas envolvidas nos projetos iniciais. Ideias de envolvimento, agregação de pessoas, engajamento e mesmo estímulo a "sentimentos bons", como se relata sobre a ideia original do "curtir" no Facebook (embora não seja muito crível conceber "boas intenções" na elaboração desse mecanismo). Mas o fato é que tais empresas têm um objetivo evidente: o lucro. E o produto a ser vendido é você.


Manipulação de dados e desejos

Embora haja escândalos graves envolvendo a venda de dados de usuários do Facebook para uso comercial e político, a utilização das informações que deveriam ser privadas e são colhidas sem que as pessoa saibam se volta prioritariamente a anunciantes destas plataformas. A promessa da publicidade veiculada em veículos como TV, rádio e impressos antes era "descobrir" ou estimular desejos e vontades do público, levando-o a consumir. Mas, agora, graças aos avanços tecnológicos e uso intensivo das redes e aplicativos, as possibilidades nesse campo se ampliaram de uma forma incrível.

Estas plataformas conseguem traçar o perfil de todos que as usam, construindo modelos com base em algoritmos que são capazes de prever determinado tipo de comportamento conforme a situação. E usam isso não só para vender aquilo que "você precisa" em determinado contexto ou momento, mas também para fazer com que seu tempo de permanência seja cada vez maior diante da tela do celular ou do computador.

O filme mostra o quão pernicioso é isso, já que o efeito dessa manipulação de dados é duplo: as companhias buscam oferecer aquilo que a pessoa sempre quer, mas também atuam para que ela queira o mesmo tipo de coisa. Sempre. É um condicionamento que pretende mantê-la no mesmo lugar, vendo continuamente o mesmo tipo de conteúdo, restrita a uma bolha onde circula um tipo de informação padrão, que se retroalimenta.

Com o usuário entrando sempre em contato com o mesmo tipo de estímulo e recebendo a "recompensa", cria-se uma zona de conforto onde qualquer interferência externa ou ruído toma forma de ameaça. Ou seja, nesse cenário a lógica do inimigo, explorada por diversas forças políticas, ganha força. O questionamento é visto como afronta e o diálogo chega ao limite do impossível.

As redes e a desinformação como arma

É o contexto que facilita a circulação das chamadas fake news, decisivas em disputas eleitorais e que trazem diversos danos em outras áreas como, por exemplo, na saúde pública. Movimentos antivacina ganham corpo e a desinformação causa mortes em meio à pandemia da covid-19, quando passam a circular desde receitas caseiras que supostamente previnem ou curam a doença a teorias que desmentem sua própria existência.

Por mais que, em alguns países, como os Estados Unidos, tenha havido tentativas de "enquadramento" das grandes companhias para que ajam contra as fake news, o filme mostra o porquê disso não se concretizar. As gigantes da comunicação ganham com a desinformação, já que notícias falsas circulam com muito mais rapidez do que as reais, gerando audiência, engajamento, cliques e dinheiro. Além disso, a inteligência artificial dos algoritmos simplesmente não sabe distinguir entre algo real ou não.

Além dos depoimentos de pessoas que participaram e participam da indústria de tecnologia, há ainda especialistas de outras áreas e uma narrativa fictícia contada para ilustrar os efeitos das redes e de seus mecanismos no cotidiano. Aqui há também o ponto fraco do filme. Não são ouvidos acadêmicos e ativistas de movimentos com o do software livre e outros que defendem a democratização da comunicação no mundo que já alertavam para as perspectivas sombrias das redes sociais e de ferramentas e softwares proprietários.

A narrativa bem construída, apesar de alertar de forma incisiva para as mudanças que já ocorrem, levando o mundo a uma espécie de distopia onde o pior de cada um pode ser despertado, também aponta para possíveis saídas, como a regulação das atividades das gigantes do setor para que se estabeleçam, normativamente, limites éticos à sua atuação. Mas faltam, mais uma vez, já que se reconhece a busca do lucro como motor do sistema, as saídas não-capitalistas.

Também fica patente que nenhuma mudança vai acontecer, de acordo com o próprio documentário, sem uma pressão forte da opinião pública, o que exige obviamente conhecimento das pessoas sobre o quanto seus direitos e suas vidas estão sendo ameaçados. Como diz Jason Lanier, autor do livro Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, que aparece no filme, mesmo que não seja possível promover uma saída em massa de forma imediata das pessoas das redes, como sugere sua obra-manifesto, é possível fazer com que atentem a essa questão, provocando a reflexão e mesmo a mudança de atitude de alguns. Reconhecer o problema é um primeiro passo.

O dilema das redes (The social dilemma)
Direção: Jeff Orlowski
Duração: 89 minutos
Disponível na Netflix


sábado, 12 de setembro de 2020

Cobra Kai na Netflix: sucesso que se justifica


Na sitcom How I Met Your Mother, os amigos do personagem Barney Stinson preparam uma despedida de solteiro para ele, realizando uma lista de desejos, que inclui conhecer o protagonista do filme Karate Kid, de 1984. Como se trata de promover inúmeras "pegadinhas" com o noivo, eles trazem Ralph Machio, que faz Daniel Larusso no filme. Barney rejeita o presente, afirmando que o "verdadeiro" Karate Kid era Johnny Lawrence (William Zabka).

O vídeo com a sequência do seriado segue abaixo.


Muitos entenderam essa passagem como uma espécie de "profecia" ou no mínimo algo que inspirou on Hurwitz, Hayden Schlossberg e Josh Heald, os criadores do seriado Cobra Kai. Se o filme original não deixava dúvidas quanto ao protagonismo de Daniel, no melhor estilo mocinho contra vilão, o seriado começa priorizando a história de seu adversário. A época é 2018, 34 anos depois dos dois adolescentes terem se enfrentado em um torneio regional de caratê sub-18.

Enquanto Larusso é agora um bem sucedido dono de uma concessionária de automóveis, Lawrence vive de bicos. Ambos ainda tem relação com o passado adolescente a a fatídica luta. Mas, ao contrário do dualismo que estabelecia bem o papel de cada um na película original, agora há uma zona cinzenta em que nenhum dos dois é tão herói ou vilão assim.

Assim como Better Call Saul resgata as origens e todo o processo que levou o advogado de Walter White a ser o que era em Breaking Bad, o passado de Lawrence também é escrutinado, mostrando que o "menino rico" da película original tem uma trajetória bem mais acidentada do que poderia parecer. Obviamente que essa construção passa longe de ser brilhante como no spin off de Vince Gillian, e a proposta nem é essa: a narrativa é contada de forma mais singela, com referências a filme de artes marciais e mesmo, em alguns momentos, a soap operas ou novelas.

Já Larusso tem uma face esnobe e por vezes arrogante ali evidenciada. A filosofia de seu mentor, "senhor" Miyagi, já morto, inspira sua busca pessoal por equilíbrio, mas também um suposto sentimento de superioridade moral mais pretensioso do que real em muitas ocasiões. É também vendedor também de sua própria imagem, ainda associada ao caratê e ao golpe célebre com que venceu Lawrence.

Nostalgia e ação

Dentro dessa narrativa fluida em que um ou outro protagonista vai merecer simpatia e seu avesso, há também o enredo que envolve os dois filho da dupla e Miguel, que vai se tornar o primeiro aluno no dojo ressuscitado Cobra Kai. Esta subtrama remete diretamente ao filme de 1984, com praticamente os mesmos elementos, a disputa entre representantes de filosofias distintas de caratê (ainda que as diferenças pareçam mais tênues no decorrer da história), jovens em busca de identidade e um triângulo amoroso. Além de uma pitada de Romeu e Julieta...

Se você ainda não assistiu à série, deve estar achando que ela tem muitos clichês. E tem. O roteiro, como já dito, é simples e às vezes peca por aquela inverossimilhança que o espectador logo pensa: "ah, não é possível". Mas isso acaba sendo minimizado pela agilidade da direção, que garante ação durante todo o tempo. E aqui não se trata só da ação entendida em seu conceito clássico que, aqui, seriam as cenas de luta, mas sim a mudança quase constante de situações que explora o tempo todo o limite dos personagens.

Assim, quem acompanha a história está sempre envolvido com algo não resolvido, torcendo para um ou outro protagonista ou desejando a solução de um mal entendido. Ainda conta a favor, para os mais velhos, o fator nostalgia em relação aos anos 1980, o que ajudou em produções como Stranger Things, mas não salvou desastres como That '80s Show. E para os mais novos, a trama dos filhos/pupilos também envolve, como é fácil notar pelas redes sociais.

Cobra Kai prende a atenção, consegue entreter e pode até gerar discussões além da história, como o papel da masculinidade no mundo atual, a dificuldade de adaptação de quem ainda funciona no "modo antigo" ou mesmo o efeito da crise da meia-idade para homens acostumados a um determinado figurino cultural (sobre isso, tem o bom filme espanhol O que os homens falam). 

A terceira temporada de Cobra Kai

As duas primeiras temporadas de Cobra Kai exibidas na Netflix foram produzidas originalmente para o YouTube Premium. Fez algum sucesso lá fora, mais em termos de apreciação "cult" do que de massa, mas chegou com força aqui há pouco tempo, a partir da chegada no catálogo do serviço de streaming mais acessado no país.

Sobre a terceira temporada, segue o que já se sabe (contém spoilers).

O final da segunda temporada deixa uma perspectiva nebulosa para todos os principais personagens, em especial para Miguel (Xolo Maridueña), principal e primeiro aluno de Lawrence que está internado após sofrer uma queda durante uma briga com Robby, aluno de LaRusso e filho de seu antagonista. E agora o dojo Cobra Kai está sob comando de seu fundador, o vilão John Kreese (Martin Kove).

Sobre o que vem a seguir, a Netflix divulgou este trailer:


Pelo teaser, pouco se revela a respeito da estreia da terceira temporada, em 2021, e mesmo da data do lançamento. Mas é possível, junto com informações de pós-produção, ver Daniel Larusso indo para Okinawa, lugar onde ele já foi no filme Karate Kid 2. Desta vez, as filmagens foram de fato realizadas no Japão, já que à época da sequência do original as cenas foram rodadas nas ilha de Oahu, no Hawai.

Pelo desenrolar da trama, é possível uma reaproximação, dentro do contexto de idas e vindas das duas primeiras temporadas, entre Larusso e Lawrence, contra Kreese. Mas daí vamos partir para a especulação. Aguardemos as cenas do próximo capítulo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O que os homens falam (Una pistola en cada mano) - a masculinidade desnuda

Embora seja centrado em oito personagens masculinos que estão próximos à chamada meia-idade, o filme espanhol O que os homens falam (Una pistola em cada mano), dirigido pelo catalão Cesc Gay, retrata inseguranças, vícios e comportamentos que caracterizam muitas vezes os homens de uma forma geral, e não apenas aqueles que estão nessa faixa etária.

filme espanhol O que os homens falam, na Amazon
Cena do filme O que os homens falam


São cinco histórias contadas com um humor ácido, mas não caricatural, impressão reforçada pelo bom elenco que sustenta o filme. Provavelmente muitos homens vão se identificar (às vezes de forma envergonhada) com os sentimentos e situações e as mulheres também vão ver ali características de pessoas conhecidas, moldadas em maior ou menor grau pela lógica do patriarcado. Que as prejudica e oprime, mas que também faz com que os homens busquem sempre os lugares que parecem a eles como pré-definidos.

Assim, em quase todas as histórias paira o embotamento emocional, a dificuldade de se expressar o que se sente ou mesmo aquilo que se quer. Só quando existe a interação com mulheres (no sentido de "conquistá-las"), ocasião em que em tese estariam exercendo seu papel, se sentem menos contidos. Contudo, as reações das personagens femininas os traz para uma nova realidade.

Esse é um dos eixos do filme. Assim como a meia idade é uma espécie de transição, o entendimento da figura masculina em uma sociedade na qual o empoderamento feminino aparece a muitos não como uma condição fundamental para uma sociedade mais igualitária, e sim como ameaça, faz com que os personagens demorem a se situar nessa nova ordem. Isso se reflete na história em que um homem tenta reatar com sua ex-mulher e também no episódio em que o funcionário de uma empresa tenta sair com uma colega de trabalho. Este último, aliás, talvez seja o mais irregular do filme, por conta da obviedade e do excessivo didatismo que destoa do restante.

O episódio em que o personagem de Ricardo Darín, que sofre por sua esposa ter um amante, tem um encontro fortuito com um homem (Luis Tosar) em um parque talvez seja o mais representativo do problema da empatia e da dificuldade em se lidar com a masculinidade da forma como a sociedade espera. Os diálogos são ricos e a tensão/expectativa que se tem ao assistir remete ao primeiro episódio, também um encontro entre dois velhos conhecidos, mas em outro contexto.



O último episódio tem dois casais que vão a uma festa e os parceiros, trocados, se encontram casualmente. De novo se evidenciam os limites da comunicação por parte dos homens e o quão difícil é enfrentar questões relativas ao estereótipo do "macho".

A composição do filme e mesmo a transição dos episódios até chegar ao final é delicada e bem trabalhada por Cesc Gay e o resultado é um filme que consegue ser incômodo aos homens (que bom, pois é isso que se espera), estimulando a reflexão sobre a necessidade de se elaborar novos tipos de identidades e relações. As interpretações chamam a atenção, até por conta da evocação à teatralidade, e os diálogos são instigantes, sem artificialismos comuns quando se tratam de temáticas similares. Em tempos como os que vivemos, obra essencial.

O que os homens falam 
(Una pistola en cada mano - 2012)
Diretor: Cesc Gay
Elenco: Ricardo Darín, Luis Tosar, Javier Cámara, Leonor Watling, Eduardo Noriega, Leonardo Sbaraglia, Candela Peña, Eduard Fernández, Alberto San Juan, Cayetana Guillén Cuervo, Jordi Mollà, Clara Segura, Silvia Abril
Nacionalidade: Espanha
Duração: 1h35
Cotação: 8/10
Disponível na Amazon

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Ligue Djá: documentário sobre Walter Mercado resgata e humaniza trajetória do lendário astrólogo

Dois Papas, na Netflix: uma ficção bem humorada, mas que pouca revela

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Ligue Djá: documentário sobre Walter Mercado resgata e humaniza trajetória do lendário astrólogo

A certa altura do filme Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado, o seu ex-agente Bill Bakula faz referência ao Brasil, dizendo que aqui o astrólogo que chegou a ter uma audiência somada de 120 milhões de pessoas era menos conhecido por seu nome e mais pelo bordão com o qual aparecia nas telas. Não à toa, o título em português incorporou o apelo que ele fazia nos antigos comerciais do sistema tele-900. Mas se no Brasil, e em boa parte do mundo, Mercado era visto como uma figura caricatural, o filme revela outros aspectos de sua trajetória. Mostra os laços afetivos que seus espectadores mantinham com ele, e também seu pioneirismo.

O diretores Cristina Constantini e Kareem Tabsch nasceram nos Estados Unidos mas são oriundos de famílias latino-americanas. Descrevem que, como muitos de suas gerações, cresceram com suas avós ou mães acompanhando as previsões astrológicas de Walter Mercado nas TVs. Depoimentos assim também aparecem no documentário, revelando a importância que personalidades como ele têm no imaginário das pessoas, provocando lembranças afetuosas e nostalgia.

Por conta disso, o filme é mais uma homenagem com "mucho, mucho amor", que tem menos a intenção de explorar possíveis contradições e polêmicas em torno de Mercado, conferindo autenticidade a uma trajetória difícil de se imaginar para um porto-riquenho nascido na zona rural na década de 1930.



O 'místico' Walter Mercado


No filme, é possível ver curiosidades a respeito do personagem, como o fato de ter "ressuscitado" um pequeno pássaro quando pequeno, fato que teria lhe dado notoriedade em sua comunidade, ocasião em que ganhou fama de curandeiro e o apelido de "Walter dos Milagres".

Também é contada a história de como ele se tornou, quase por acaso, um astrólogo que se portava com desenvoltura diante das câmeras com um visual extravagante. Um executivo o observava nas gravações de uma novela da emissora hispano-americana Telemundo falando sobre astrologia e lendo as mãos de outros colegas, quando pediu para que fizesse aquilo diante das câmeras. Vestido como um príncipe hindu, gesticulou e dissertou sobre signos durante 15 minutos, gerando grande repercussão entre os telespectadores, que passaram a entupir as linhas telefônicas da emissora.

Começava ali uma carreira que durou 50 anos. O documentário mostra como ele foi importante para autoestima da população porto-riquenha e latino-americana nos Estados Unidos de uma forma geral (o encontro com o ator e escritor Lin-Manuel Miranda é ilustrativo sobre isso), e também seu papel de pioneiro como um ícone da comunidade LGBTQI+.

Walter Mercado era reservado quanto à sua sexualidade, declarando às vezes ter realizado um "voto de castidade" na Índia, e em outras ocasiões sugerindo que este não era um aspecto importante na sua vida. Mas não há dúvida que seu visual andrógino era desafiador e inspirador, em especial no contexto à época. Talvez sua postura possa ser resumida em uma frase retratada no documentário: "Lo que se ve, no se pregunta" ("O que é óbvio não precisa ser perguntado").



O vilão da história Bill Bakula


A jornada do menino pobre que se tornou uma personalidade mundial obviamente tem seus baixos e, neste caso, o filme retrata o ex-agente Bill Bakula como uma espécie de vilão da história. A ele é reservada a responsabilidade, por exemplo, da implantação do sistema de tele-atendimento astrológico que fez sucesso em diversos países, inclusive no Brasil.

As críticas de pessoas do meio se referiam ao fato de que os profissionais seriam mal preparados e/ou que seria impossível prestar atendimento diferenciado por conta das condições de trabalho. No Brasil, havia ainda denúncias a respeito da fragilidade dos vínculos empregatícios e desrespeito à legislação trabalhista. No filme, Mercado se defende dizendo que "nunca prometeu que alguém iria ganhar na loteria", afirmando não saber de detalhes que aconteciam neste sistema, que de fato foi estruturado por Bakula.

Mas o ex-agente ganha relevância na história por conta de um contrato assinado com o astrólogo, no qual adquiria para sempre direitos sobre a obra e mesmo sobre o nome de Walter Mercado. O caso foi parar na Justiça, obrigando seu ex-agenciado a um retiro forçado longe das câmeras por seis anos, até a resolução do conflito.

Nessa oposição entre Bakula e Mercado poderia estar uma das falhas do filme, já que os papeis estão bem definidos. Mas, como já dito, não se trata da busca por algum tipo de "verdade objetiva" ou de se demonstrar uma imparcialidade envernizada, ficando patente que a direção do filme adotou um ponto de vista a partir de sua apuração.

A autenticidade do personagem


Toda a história é contada com depoimentos e também com as últimas imagens de Mercado registradas. E esse é o grande diferencial: são mais de dois anos de filmagens com ele, mostrando sua intimidade, mas também transparecendo a autenticidade com que viveu sua vida. Walter Mercado era sobretudo um artista, apresentado como alguém que viveu como desejou viver.

Ainda que se evidencie a sua decadência física e seus problemas de saúde, a narrativa consegue mostrar a energia com que, mesmo dentro de suas limitações, o protagonista se apresenta quando incorpora o personagem que despeja e recebe afeto de seus fãs. E a exposição em sua homenagem feita em Miami é o merecido gran finale de um filme delicado, que consegue envolver e emocionar.


Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado (Mucho, Mucho Amor, 2020)

Direção: Cristina Costantini, Kareem Tabsch
Elenco: Walter Mercado
Nacionalidade: Estados Unidos
Duração: 1h36
Cotação: 7/10
Disponível na Netflix

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O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing That Lives in The House) - filme mais pretensioso que artístico

Animais Noturnos: a arte que oscila entre a superfície, a catarse e a vingança

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Dois Papas, na Netflix: uma ficção bem humorada, mas que pouca revela

Dois protagonistas com personalidades opostas em geral dão grandes histórias. Além das ficções, temos diversos filmes inspirados em fatos reais que mostram desde rivalidades entre profissionais do mesmo ramo, artistas, esportistas até os clássicos "polícia e bandido" que Hollywood cansou de explorar.

Quem vê mesmo por cima o noticiário sabe que as figuras dos Papas Bento XVI e Francisco são absolutamente distintas. O primeiro, notório conservador que foi responsável, à frente da Congregação para a Doutrina e Fé, poderosa congregação da Cúria Romana, pela quase extinção dos movimentos progressistas de base da Igreja Católica, em especial na América Latina dos anos 1970 e 1980, quando a Teologia da Libertação era forte em diversos países da região. Nem como cardeal, tampouco como pontífice, foi uma pessoa extrovertida ou popular, sendo bem mais discreto que seu antecessor, João Paulo II, de quem foi fiel escudeiro.

Do outro lado, alguém que se mostra avesso à ostentação da Igreja, com postura mais simples e facilidade para o diálogo. E, ao contrário de  Bento XVI, aberto a mudanças (ao menos do ponto de vista discursivo) em relação a temas sensíveis para o Vaticano, como a união homossexual e a desigualdade de gênero. Sua eleição se dá ainda em um momento de crescimento da onda conservadora no campo político, o que realça ainda mais o seu discurso.




O filme Dois Papas traz essas contradições entre os dois a partir de um encontro (fictício) ocorrido quando o então cardeal argentino Jorge Bergoglio encaminha ao Papa e ex-cardeal Joseph Ratzinger uma carta de renúncia. O pontífice o convida para ir à sua residência de verão e do encontro entre os dois surge uma interação e uma sinergia improváveis dadas as diferenças entre ambos e seu estranhamento inicial.

(A partir daqui, alguns spoilers)

O filme de Fernando Meirelles tem como mérito fugir ao senso comum da visão sobre ambos os personagens. Humaniza as duas figuras, trazendo um Bento XVI que, mesmo rígido e introvertido no que diz respeito às questões dogmáticas da religião, consegue se abrir para o colega, sendo ainda uma pessoa sensível à música e à arte (ele de fato é pianista). Por outro lado, também é destacado pelo lado do Papa Francisco a sua atuação, como presidente da ordem dos jesuítas na Argentina, durante a ditadura militar no país, quando dois membros de sua organização foram presos pelo regime. O fato é real e Bergoglio já demonstrou em entrevistas arrependimento por não ter tido uma postura assertiva contra o atuoritarismo à época.

A narrativa também ganha força com imagens reais e algumas feitas como se assim fossem, mas o roteiro peca com diálogos esquemáticos e que não fluem naturalmente. Exemplo disso é a conversa inicial logo que o cardeal Bergoglio chega à residência papal, quando é inquirido por Ratzinger. Ali, aparecem os temas que seriam de maior divergência entre os dois quase que enumerados, com Bento XVI deixando sempre a palavra final para o cardeal. Não há nenhum nível de debate de fato e a cena é salva pela interpretação primorosa de Anthony Hopkins e Jontahan Pryce.

Outro ponto baixo nesse aspecto é a cena em que Bergoglio descreve sua vivência no regime militar argentino. Por vezes, quem faz a narração é o próprio Bento XVI. Por mais que se coloque ali que o pontífice leu a "ficha" do argentino, as intervenções são artificiais e contrastam com o sentimento do próprio diálogo em que eles estariam se abrindo um ao outro.

Ao buscar um ponto de vista que tivesse como primazia a relação interpessoal, o filme deixa, provavelmente por opção, de se aprofundar nas relações de cunho eclesiais e políticas, o que também empobrece a narrativa, dado todo o pano de fundo em que se desenrolou a renúncia de um papa, algo que não acontecia há mais de 700 anos. Isso, aliado ao fato de os dois protagonistas serem mostrados como figuras que desejam o mesmo, o "bem da Igreja", por vias distintas, sugere uma visão um tanto simplista de um episódio histórico.

Com humor, o filme Dois Papas é agradável de se ver, mas, ao não se arriscar a entender as contradições reais representadas pelo quase ineditismo de a Igreja ter hoje dois pontífices, se limita à condição de um bom passatempo.




Dois Papas (Two Popes, 2019)
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Anthony Hopkins, Jonathan Pryce, Juan Minujín
Nacionalidade: Reino Unido, Itália, Argentina, EUA
Duração: 2h05
Cotação: 6/10

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Animais Noturnos: a arte que oscila entre a superfície, a catarse e a vingança

No primeiro de seus três livros autobiográficos, Contar para Viver, o escritor colombiano Gabriel García Márquez refletia que "o escritor escreve seu livro para explicar a si mesmo o que não pode ser explicado". Muitas vezes, os rastros dessa tentativa incomodam e mexem com os autores, e em outras ocasiões podem até servir como uma espécie de terapia para amadores e profissionais, uma forma de lidar com aquilo que nem sempre se pode dizer em voz alta.

Em Animais Noturnos (2016), filme disponível na Netflix, a história se desenvolve a partir de um livro. Susan (Amy Adams) é dona de uma galeria de arte, ela mesma uma artista frustrada. Tem status, dinheiro, elevada posição social, mas vive um cotidiano onde impera a superficialidade, com um casamento que é uma farsa aparente e uma vida infeliz.

Após a breve apresentação do dia a dia da protagonista, surge o momento em que se desenvolve uma segunda trama. Susan recebe um livro escrito por seu primeiro marido, Edward (Jake Gyllenhaal),  intitulado Animais Noturnos e dedicado a ela, e deste ponto a ficção escrita é apresentada ao espectador. Trata-se da narrativa sobre um homem, Tony, que está em viagem de férias com sua mulher e a filha, mas que é alvo de um trio na estrada, liderado por Ray (Aaron Taylor-Johnson).

Nesta "história dentro da história", tem início um thriller violento em que também ganha destaque o investigador Bobby Andes (Michael Shannon), que vai ajudar o personagem principal a elucidar o caso.



O romance é uma leitura de Edward sobre o próprio casamento com Susan, e tanto a história como as referências pessoais passam a fazer com que ela reflita e relembre os alguns momentos de seu passado, e uma terceira história começa a ser contada. Ela relembra sua trajetória com o ex em um contexto em que quase não consegue dormir, chegando a ter mesmo algumas alucinações em função disso que podem remeter quem assiste a filmes como Insônia (2002).

Três histórias sobrepostas


Se o livro do personagem Edward traz o espírito da frase de García Márquez, levando a Susan aquilo que seria a "verdade" do autor sobre a relação dos dois, o diretor Tom Ford também deixa suas evidentes impressões pessoais no filme. Estilista relevante no mundo fashion, traz um pouco da visão de sua "bolha" por meio da protagonista e a estética de quando é narrado o momento presente da personagem, que muitos entendem como uma linguagem quase publicitária, contrasta com o clima e a fotografia áridos da história de Tony, delimitando dois mundos distintos.

Como em seu outro longa, Um Homem Singular (2009), no qual conta com uma grande atuação de Colin Firth, Ford conta com grandes atuações. Jake Gyllenhaal rouba a cena tanto na pele de Edward mas em especial de seu personagem-alter ego Tony. Impossível não destacar ainda a forma como Amy Adams constrói sua personagem, conseguindo passar a relativa indiferença com que ela encara determinadas situações, misturada a uma angústia contida e não tratada, que resulta em suas noites insones e em seus lapsos mentais diurnos, assim como toda a solidão de suas reflexões tardias.

O filme peca, no entanto, em algumas partes do roteiro. O cacoete de tentar "explicar" ou resumir contextos em diálogos não funciona bem. Na primeira parte, por exemplo, a conversa entre Susan e sua amiga, posteriormente com o marido dela, são de um pretenso didatismo que contrastam com o andamento sutil do filme. O mesmo acontece, em escala maior, quando a mãe da protagonista tenta impedir com que ela case com Edward. O simplismo do "você é mais parecida com sua mãe do que pensa" é algo que busca sintetizar a origem de um aspecto da personagem principal, o seu prazer pelo conforto material, de forma rasa. 

Mas as falhas do roteiro são compensadas não somente pelas atuações como também pela densidade das três histórias sobrepostas. A discussão sobre papel de cada gênero  — do homem, espera-se e é tolerada a brutalidade como sinônimo de força, enquanto para a mulher o casamento será a base de sua vida social — e como a pressão de grupos, em especial a família, são determinantes na vida de cada um, e perpassam todo o filme.

O papel da arte também se destaca na história. A personagem principal, uma artista que não seguiu sua vocação, permanece no meio, porém, trabalhando com obras pelas quais nutre desprezo por não conseguir ver justamente o tom genuíno que encontra a obra de seu ex-marido. Curiosamente, o mesmo autor pelo qual ela não conseguiu ver o talento que garantiria, na sua visão, sucesso do ponto de vista econômico.

Por outro lado, para Edward, sua "obra-prima" revela o papel catártico que uma peça de arte pode ter, sendo ao mesmo tempo uma forma de dialogar com o outro. No caso, e por muitas vezes, de uma forma áspera e direta, algo quase impossível de se dar de outro modo. Um ressentimento emoldurado como forma primitiva de vingança ou, talvez seja o termos mais apropriado, acerto de contas.

Na história de Susan (ou de Tony & Susan, título do livro original do qual o roteiro foi adaptado) estão presentes não só a força do passado na constituição do sujeito como a necessidade de lidar com ele o tempo todo. Além da impossibilidade, muitas vezes angustiante, de mudá-lo.

Confira abaixo o trailer:






Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016)
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson
.Nacionalidade: Estados Unidos
Duração: 1h57
Cotação: 7/10
Disponível na Netflix

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