sexta-feira, 17 de julho de 2020

Ligue Djá: documentário sobre Walter Mercado resgata e humaniza trajetória do lendário astrólogo

A certa altura do filme Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado, o seu ex-agente Bill Bakula faz referência ao Brasil, dizendo que aqui o astrólogo que chegou a ter uma audiência somada de 120 milhões de pessoas era menos conhecido por seu nome e mais pelo bordão com o qual aparecia nas telas. Não à toa, o título em português incorporou o apelo que ele fazia nos antigos comerciais do sistema tele-900. Mas se no Brasil, e em boa parte do mundo, Mercado era visto como uma figura caricatural, o filme revela outros aspectos de sua trajetória. Mostra os laços afetivos que seus espectadores mantinham com ele, e também seu pioneirismo.

O diretores Cristina Constantini e Kareem Tabsch nasceram nos Estados Unidos mas são oriundos de famílias latino-americanas. Descrevem que, como muitos de suas gerações, cresceram com suas avós ou mães acompanhando as previsões astrológicas de Walter Mercado nas TVs. Depoimentos assim também aparecem no documentário, revelando a importância que personalidades como ele têm no imaginário das pessoas, provocando lembranças afetuosas e nostalgia.

Por conta disso, o filme é mais uma homenagem com "mucho, mucho amor", que tem menos a intenção de explorar possíveis contradições e polêmicas em torno de Mercado, conferindo autenticidade a uma trajetória difícil de se imaginar para um porto-riquenho nascido na zona rural na década de 1930.



O 'místico' Walter Mercado


No filme, é possível ver curiosidades a respeito do personagem, como o fato de ter "ressuscitado" um pequeno pássaro quando pequeno, fato que teria lhe dado notoriedade em sua comunidade, ocasião em que ganhou fama de curandeiro e o apelido de "Walter dos Milagres".

Também é contada a história de como ele se tornou, quase por acaso, um astrólogo que se portava com desenvoltura diante das câmeras com um visual extravagante. Um executivo o observava nas gravações de uma novela da emissora hispano-americana Telemundo falando sobre astrologia e lendo as mãos de outros colegas, quando pediu para que fizesse aquilo diante das câmeras. Vestido como um príncipe hindu, gesticulou e dissertou sobre signos durante 15 minutos, gerando grande repercussão entre os telespectadores, que passaram a entupir as linhas telefônicas da emissora.

Começava ali uma carreira que durou 50 anos. O documentário mostra como ele foi importante para autoestima da população porto-riquenha e latino-americana nos Estados Unidos de uma forma geral (o encontro com o ator e escritor Lin-Manuel Miranda é ilustrativo sobre isso), e também seu papel de pioneiro como um ícone da comunidade LGBTQI+.

Walter Mercado era reservado quanto à sua sexualidade, declarando às vezes ter realizado um "voto de castidade" na Índia, e em outras ocasiões sugerindo que este não era um aspecto importante na sua vida. Mas não há dúvida que seu visual andrógino era desafiador e inspirador, em especial no contexto à época. Talvez sua postura possa ser resumida em uma frase retratada no documentário: "Lo que se ve, no se pregunta" ("O que é óbvio não precisa ser perguntado").



O vilão da história Bill Bakula


A jornada do menino pobre que se tornou uma personalidade mundial obviamente tem seus baixos e, neste caso, o filme retrata o ex-agente Bill Bakula como uma espécie de vilão da história. A ele é reservada a responsabilidade, por exemplo, da implantação do sistema de tele-atendimento astrológico que fez sucesso em diversos países, inclusive no Brasil.

As críticas de pessoas do meio se referiam ao fato de que os profissionais seriam mal preparados e/ou que seria impossível prestar atendimento diferenciado por conta das condições de trabalho. No Brasil, havia ainda denúncias a respeito da fragilidade dos vínculos empregatícios e desrespeito à legislação trabalhista. No filme, Mercado se defende dizendo que "nunca prometeu que alguém iria ganhar na loteria", afirmando não saber de detalhes que aconteciam neste sistema, que de fato foi estruturado por Bakula.

Mas o ex-agente ganha relevância na história por conta de um contrato assinado com o astrólogo, no qual adquiria para sempre direitos sobre a obra e mesmo sobre o nome de Walter Mercado. O caso foi parar na Justiça, obrigando seu ex-agenciado a um retiro forçado longe das câmeras por seis anos, até a resolução do conflito.

Nessa oposição entre Bakula e Mercado poderia estar uma das falhas do filme, já que os papeis estão bem definidos. Mas, como já dito, não se trata da busca por algum tipo de "verdade objetiva" ou de se demonstrar uma imparcialidade envernizada, ficando patente que a direção do filme adotou um ponto de vista a partir de sua apuração.

A autenticidade do personagem


Toda a história é contada com depoimentos e também com as últimas imagens de Mercado registradas. E esse é o grande diferencial: são mais de dois anos de filmagens com ele, mostrando sua intimidade, mas também transparecendo a autenticidade com que viveu sua vida. Walter Mercado era sobretudo um artista, apresentado como alguém que viveu como desejou viver.

Ainda que se evidencie a sua decadência física e seus problemas de saúde, a narrativa consegue mostrar a energia com que, mesmo dentro de suas limitações, o protagonista se apresenta quando incorpora o personagem que despeja e recebe afeto de seus fãs. E a exposição em sua homenagem feita em Miami é o merecido gran finale de um filme delicado, que consegue envolver e emocionar.


Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado (Mucho, Mucho Amor, 2020)

Direção: Cristina Costantini, Kareem Tabsch
Elenco: Walter Mercado
Nacionalidade: Estados Unidos
Duração: 1h36
Cotação: 7/10
Disponível na Netflix

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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Dois Papas, na Netflix: uma ficção bem humorada, mas que pouca revela

Dois protagonistas com personalidades opostas em geral dão grandes histórias. Além das ficções, temos diversos filmes inspirados em fatos reais que mostram desde rivalidades entre profissionais do mesmo ramo, artistas, esportistas até os clássicos "polícia e bandido" que Hollywood cansou de explorar.

Quem vê mesmo por cima o noticiário sabe que as figuras dos Papas Bento XVI e Francisco são absolutamente distintas. O primeiro, notório conservador que foi responsável, à frente da Congregação para a Doutrina e Fé, poderosa congregação da Cúria Romana, pela quase extinção dos movimentos progressistas de base da Igreja Católica, em especial na América Latina dos anos 1970 e 1980, quando a Teologia da Libertação era forte em diversos países da região. Nem como cardeal, tampouco como pontífice, foi uma pessoa extrovertida ou popular, sendo bem mais discreto que seu antecessor, João Paulo II, de quem foi fiel escudeiro.

Do outro lado, alguém que se mostra avesso à ostentação da Igreja, com postura mais simples e facilidade para o diálogo. E, ao contrário de  Bento XVI, aberto a mudanças (ao menos do ponto de vista discursivo) em relação a temas sensíveis para o Vaticano, como a união homossexual e a desigualdade de gênero. Sua eleição se dá ainda em um momento de crescimento da onda conservadora no campo político, o que realça ainda mais o seu discurso.




O filme Dois Papas traz essas contradições entre os dois a partir de um encontro (fictício) ocorrido quando o então cardeal argentino Jorge Bergoglio encaminha ao Papa e ex-cardeal Joseph Ratzinger uma carta de renúncia. O pontífice o convida para ir à sua residência de verão e do encontro entre os dois surge uma interação e uma sinergia improváveis dadas as diferenças entre ambos e seu estranhamento inicial.

(A partir daqui, alguns spoilers)

O filme de Fernando Meirelles tem como mérito fugir ao senso comum da visão sobre ambos os personagens. Humaniza as duas figuras, trazendo um Bento XVI que, mesmo rígido e introvertido no que diz respeito às questões dogmáticas da religião, consegue se abrir para o colega, sendo ainda uma pessoa sensível à música e à arte (ele de fato é pianista). Por outro lado, também é destacado pelo lado do Papa Francisco a sua atuação, como presidente da ordem dos jesuítas na Argentina, durante a ditadura militar no país, quando dois membros de sua organização foram presos pelo regime. O fato é real e Bergoglio já demonstrou em entrevistas arrependimento por não ter tido uma postura assertiva contra o atuoritarismo à época.

A narrativa também ganha força com imagens reais e algumas feitas como se assim fossem, mas o roteiro peca com diálogos esquemáticos e que não fluem naturalmente. Exemplo disso é a conversa inicial logo que o cardeal Bergoglio chega à residência papal, quando é inquirido por Ratzinger. Ali, aparecem os temas que seriam de maior divergência entre os dois quase que enumerados, com Bento XVI deixando sempre a palavra final para o cardeal. Não há nenhum nível de debate de fato e a cena é salva pela interpretação primorosa de Anthony Hopkins e Jontahan Pryce.

Outro ponto baixo nesse aspecto é a cena em que Bergoglio descreve sua vivência no regime militar argentino. Por vezes, quem faz a narração é o próprio Bento XVI. Por mais que se coloque ali que o pontífice leu a "ficha" do argentino, as intervenções são artificiais e contrastam com o sentimento do próprio diálogo em que eles estariam se abrindo um ao outro.

Ao buscar um ponto de vista que tivesse como primazia a relação interpessoal, o filme deixa, provavelmente por opção, de se aprofundar nas relações de cunho eclesiais e políticas, o que também empobrece a narrativa, dado todo o pano de fundo em que se desenrolou a renúncia de um papa, algo que não acontecia há mais de 700 anos. Isso, aliado ao fato de os dois protagonistas serem mostrados como figuras que desejam o mesmo, o "bem da Igreja", por vias distintas, sugere uma visão um tanto simplista de um episódio histórico.

Com humor, o filme Dois Papas é agradável de se ver, mas, ao não se arriscar a entender as contradições reais representadas pelo quase ineditismo de a Igreja ter hoje dois pontífices, se limita à condição de um bom passatempo.




Dois Papas (Two Popes, 2019)
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Anthony Hopkins, Jonathan Pryce, Juan Minujín
Nacionalidade: Reino Unido, Itália, Argentina, EUA
Duração: 2h05
Cotação: 6/10

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Animais Noturnos: a arte que oscila entre a superfície, a catarse e a vingança

No primeiro de seus três livros autobiográficos, Contar para Viver, o escritor colombiano Gabriel García Márquez refletia que "o escritor escreve seu livro para explicar a si mesmo o que não pode ser explicado". Muitas vezes, os rastros dessa tentativa incomodam e mexem com os autores, e em outras ocasiões podem até servir como uma espécie de terapia para amadores e profissionais, uma forma de lidar com aquilo que nem sempre se pode dizer em voz alta.

Em Animais Noturnos (2016), filme disponível na Netflix, a história se desenvolve a partir de um livro. Susan (Amy Adams) é dona de uma galeria de arte, ela mesma uma artista frustrada. Tem status, dinheiro, elevada posição social, mas vive um cotidiano onde impera a superficialidade, com um casamento que é uma farsa aparente e uma vida infeliz.

Após a breve apresentação do dia a dia da protagonista, surge o momento em que se desenvolve uma segunda trama. Susan recebe um livro escrito por seu primeiro marido, Edward (Jake Gyllenhaal),  intitulado Animais Noturnos e dedicado a ela, e deste ponto a ficção escrita é apresentada ao espectador. Trata-se da narrativa sobre um homem, Tony, que está em viagem de férias com sua mulher e a filha, mas que é alvo de um trio na estrada, liderado por Ray (Aaron Taylor-Johnson).

Nesta "história dentro da história", tem início um thriller violento em que também ganha destaque o investigador Bobby Andes (Michael Shannon), que vai ajudar o personagem principal a elucidar o caso.



O romance é uma leitura de Edward sobre o próprio casamento com Susan, e tanto a história como as referências pessoais passam a fazer com que ela reflita e relembre os alguns momentos de seu passado, e uma terceira história começa a ser contada. Ela relembra sua trajetória com o ex em um contexto em que quase não consegue dormir, chegando a ter mesmo algumas alucinações em função disso que podem remeter quem assiste a filmes como Insônia (2002).

Três histórias sobrepostas


Se o livro do personagem Edward traz o espírito da frase de García Márquez, levando a Susan aquilo que seria a "verdade" do autor sobre a relação dos dois, o diretor Tom Ford também deixa suas evidentes impressões pessoais no filme. Estilista relevante no mundo fashion, traz um pouco da visão de sua "bolha" por meio da protagonista e a estética de quando é narrado o momento presente da personagem, que muitos entendem como uma linguagem quase publicitária, contrasta com o clima e a fotografia áridos da história de Tony, delimitando dois mundos distintos.

Como em seu outro longa, Um Homem Singular (2009), no qual conta com uma grande atuação de Colin Firth, Ford conta com grandes atuações. Jake Gyllenhaal rouba a cena tanto na pele de Edward mas em especial de seu personagem-alter ego Tony. Impossível não destacar ainda a forma como Amy Adams constrói sua personagem, conseguindo passar a relativa indiferença com que ela encara determinadas situações, misturada a uma angústia contida e não tratada, que resulta em suas noites insones e em seus lapsos mentais diurnos, assim como toda a solidão de suas reflexões tardias.

O filme peca, no entanto, em algumas partes do roteiro. O cacoete de tentar "explicar" ou resumir contextos em diálogos não funciona bem. Na primeira parte, por exemplo, a conversa entre Susan e sua amiga, posteriormente com o marido dela, são de um pretenso didatismo que contrastam com o andamento sutil do filme. O mesmo acontece, em escala maior, quando a mãe da protagonista tenta impedir com que ela case com Edward. O simplismo do "você é mais parecida com sua mãe do que pensa" é algo que busca sintetizar a origem de um aspecto da personagem principal, o seu prazer pelo conforto material, de forma rasa. 

Mas as falhas do roteiro são compensadas não somente pelas atuações como também pela densidade das três histórias sobrepostas. A discussão sobre papel de cada gênero  — do homem, espera-se e é tolerada a brutalidade como sinônimo de força, enquanto para a mulher o casamento será a base de sua vida social — e como a pressão de grupos, em especial a família, são determinantes na vida de cada um, e perpassam todo o filme.

O papel da arte também se destaca na história. A personagem principal, uma artista que não seguiu sua vocação, permanece no meio, porém, trabalhando com obras pelas quais nutre desprezo por não conseguir ver justamente o tom genuíno que encontra a obra de seu ex-marido. Curiosamente, o mesmo autor pelo qual ela não conseguiu ver o talento que garantiria, na sua visão, sucesso do ponto de vista econômico.

Por outro lado, para Edward, sua "obra-prima" revela o papel catártico que uma peça de arte pode ter, sendo ao mesmo tempo uma forma de dialogar com o outro. No caso, e por muitas vezes, de uma forma áspera e direta, algo quase impossível de se dar de outro modo. Um ressentimento emoldurado como forma primitiva de vingança ou, talvez seja o termos mais apropriado, acerto de contas.

Na história de Susan (ou de Tony & Susan, título do livro original do qual o roteiro foi adaptado) estão presentes não só a força do passado na constituição do sujeito como a necessidade de lidar com ele o tempo todo. Além da impossibilidade, muitas vezes angustiante, de mudá-lo.

Confira abaixo o trailer:






Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016)
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson
.Nacionalidade: Estados Unidos
Duração: 1h57
Cotação: 7/10
Disponível na Netflix

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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filme mexicano Almacenados traz a falta de sentido do trabalho na vida de cada um

"O que você faz da vida?". Esta pergunta em geral é dirigida a alguém quando se quer saber em que ela trabalha, o que, nas sociedades ocidentais é praticamente o principal definidor da identidade de uma pessoa. O fato de a sua ocupação ser um sinônimo da forma como você "vive a vida" evidencia sua centralidade.

Cena de Almacenados


O filme Almacenados (2015) fala sobre isso, mas não só. É um confronto de gerações e de pensamentos aparentemente antagônicos mas que retratam a mesma realidade. Se o trabalho é tão crucial na vida de cada um, impedir que segmentos da população o acessem, como acontece não só em momentos de crise econômica mas também de forma crônica em algumas economias, é algo perverso. E a constante ameaça da falta de emprego, aliada a condições desiguais de educação e de possibilidades de escolher livremente o seu trabalho faz com que o trabalhador se agarre a qualquer oportunidade que apareça.

O cenário é comum em países em desenvolvimento como México. Na capital, o senhor Lino (José Carlos Ruiz) é um encarregado de um depósito de uma fábrica de hastes e mastros, sendo que o local no qual trabalha só recebe o segundo tipo de produto. A cinco dias de se aposentar, recebe o ajudante que irá substitui-lo, Nin (Hoze Meléndez).

Lino não quer se aposentar. Não que seu emprego seja excitante e maravilhoso, mas o modo como o encara e a forma com que explica suas funções para o aprendiz deixam a impressão de que aquilo, que preencheu durante 39 anos seu dia a dia, talvez seja justamente a única coisa que faça algum sentido em sua vida modesta. Daí surge o primeiro choque com Nin. O jovem não vê as funções descritas por seu chefe como nobres ou grandiosas, mas sim como banais, atreladas a um subemprego que paga pouco e não oferece nada além de condições de sobrevivência.

Esse conflito, em boa parte do tempo silencioso, se desenrola em meio ao embate entre dois pontos distintos não só sobre o trabalho, mas sobre a vida. Enquanto Lino busca atribuir sentido e importância ao cotidiano vivido de forma entediante durante quase quatro décadas, Nin é quem vai tentar trazê-lo à realidade não só do trabalho, mas da própria situação da empresa.

Durante quase todo o tempo, o cenário de Almacenados é o depósito onde quase nada (e quase tudo) acontece, preservando o ar teatral da peça original de David Desola, que também é roteirista da película. A condução do diretor Jack Zagha Kababie (Adiós mundo cruel e O Último Trago) traduz não apenas o cotidiano entediante de ambos em sua rotina como os distintos graus de desconforto entre os protagonistas nas cenas de conflito dissimulado e também aberto.

A evolução dos protagonistas durante a trama mostra ainda um necessário e cada vez mais em fala exercício da empatia, com um adentrando o universo do outro e se transformando por esta experiência. Contudo, também marca os limites da condição socioeconômica que, ao fim, nivelam em certo sentido os dois personagens em suas perspectivas e anseios, por mais diferentes que sejam suas personalidades. Almacenados é um ensaio sobre a natureza humana e o sobre o que o trabalho na sociedade capitalista moderna faz dela.

Confira o trailer oficial abaixo



Almacenados (Almacenados, 2015)
Direção: Jack Zagha Kababie
Elenco: José Carlos Ruiz, Hoze Meléndez.
Nacionalidade: mexicana
Duração: 1h32
Cotação: 8/10
Disponível na Netflix

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Máquina de Guerra (War Machine) - em produção da Netflix, Brad Pitt traz a "empatia impossível" da guerra

sábado, 27 de maio de 2017

Máquina de Guerra (War Machine) - em produção da Netflix, Brad Pitt traz a "empatia impossível" da guerra

Sátira sobre a ocupação dos EUA e da Otan no Afeganistão traz retrato mordaz de uma política de intervenção impossível de dar certo

O filme War Machine, Máquina de Guerra, produção do Netflix do diretor David Michôd, trata de um tema tratado quase à exaustão no cinema norte-americano. A guerra ou as guerras são alvo constante de películas, muitas delas trazendo críticas a posteriori que no calor da dita batalha são sufocadas ou apenas sussurradas, já que toda a engrenagem midiática que lhes dá suporte quase não permite o contraditório. Nem por isso, deixa de ser um filme interessante.

Agora, o campo de batalha é o Afeganistão, invadido pelos EUA em 2001, e o fio condutor da história é um personagem real, o controverso general Stanley McChrystal, comandante das forças dos EUA e da Otan no país, durante parte da gestão Obama. O militar era defensor da teoria da "contra-insurgência", estratégia considerada de sucesso levada a cabo no Iraque por outro militar considerado herói estadunidense, David Petraeus. Em linhas gerais, consiste em combinar equipamentos de alta tecnologia com o uso de força intensiva de tropas em solo, no qual um contingente massivo de soldados passa a conviver com a população local com o objetivo de auxiliar na construção um novo governo, assumindo funções "diplomáticas" (ou colonizadoras) e exercendo um papel político antes reservado somente a civis.

Obviamente que as condições próprias da situação do Afeganistão eram diferentes das do Iraque, e o "sucesso" da ação é mais que questionável, mas Stanley McChrystal era alguém convicto nas suas crenças e, além disso, sem papas na língua. Foi uma reportagem da revista Rolling Stone que acabou decretando sua queda. Obama não gostou nada das declarações do general e de assessores desancando a linha de ação do governo, figuras de sua administração como seu próprio vice-presidente, Joe Biden, e acabou substituindo o comandante justamente por seu mentor, Petraeus.

Como se chega a esse ponto é a história que o filme conta, e isso não é exatamente um spoiler, já que desde o início (e a própria história da ocupação no Afeganistão se encarregou de mostrar), trata-se de uma guerra impossível de ser vencida. No entanto, ninguém contou isso para o general Glen McMahon, vivido por Brad Pitt e que é, na verdade, McChrystal. O diretor australiano explicou que a criação do fictício comandante militar, “que não se parece em nada com o McChrystal real”, se dá porque a obra não foca em “nenhum indivíduo concreto, mas sim sobre um sistema e o particular comportamento dos militares nesse sistema”.


Esse teor de crítica mais ampla permeia o filme inteiro, mas também é difícil despersonalizar a história tendo um protagonista com a força de McMahon. A interpretação de Brad Pitt consegue um equilíbrio perfeito entre a caricatura, que muitas vezes distancia o espectador do personagem, e o homem que poderia ser qualquer pessoa que você conhece. As cenas em que o general corre solitário em seu exercício diário remetem, aliás, a Forrest Gump no jeito de correr do militar e também nas características que poderiam unir ambas as figuras: um alheamento da realidade aliado a uma obstinação que perderia o sentido não fosse a própria ideia fixa.

Embora conte com o apoio irrestrito de uma equipe leal, em sua saga, McMahon tem que convencer suas tropas a exercer um outro tipo de ação, em que a prioridade é evitar perdas civis para que não haja mais insurgentes se aliando aos talibãs e exércitos locais que combatem as forças ocidentais e do governo local. Para executar tal estratégia, precisa convencer seu próprio governo, que sofre com o desgaste de uma guerra que àquela altura, em 2009, já durava nove anos e era contestada pela opinião pública, a enviar mais tropas. Tem também que fazer o mesmo tipo de trabalho com os países-membros da Otan.

Boa parte da narrativa se dá nesse trabalho de convencimento do general, com seus soldados, com representantes diplomáticos, mas nunca em relação a si mesmo. Ele não duvida dos seus métodos, acredita que tudo se trata de uma questão de liderança e do jeito certo de se fazer. Quando questionado, muitas vezes não tem respostas para as críticas que sua missão recebe, mas isso não o abala. Embora tenha um tipo de ação que possa parecer orientada de forma distinta de outras celebrizadas pelas Forças Armadas norte-americanas, seu objetivo é o mesmo: vencer a guerra. A forma como vai conseguir a vitória não tem necessariamente um viés humanitário. É só estratégia.

Uma das cenas mais emblemáticas se dá quando McMahon se encontra pela segunda vez com o presidente afegão, Karzai, vivido pelo sempre ótimo Ben Kingsley. Enquanto o presidente o recebe em uma cama, gripado e assistindo à comédia Debi e Lóid, o general diz precisar que o mandatário exerça sua liderança. Ele, ironicamente, responde que já está fazendo isso: "Estou indisponível. Estou indisponível tanto para você quanto seu próprio presidente". A visita do militar ocorre para pedir uma autorização formal a uma operação que será executada em Kandahar. Novamente, Karzai é sarcástico. "Tem minha autorização, general. Ambos sabemos que eu nunca tive poder para tal. Mas agradeço por ter me convidado para participar do teatro de tudo isso."

O cinismo com que o presidente trata da situação é a evidência de que qualquer exercício de empatia entre um país invasor e um povo dominado, ainda que se use o eufemismo da "parceria" (hoje muito utilizado também em relações entre patrões e empregados), é impossível. Tais alianças se dão em relação a pequenos segmentos abastados, muitas vezes tão alheios à própria realidade como o personagem de Brad Pitt. A narrativa dá pistas disso o tempo todo para o protagonista, que, preso em sua bolha, pessoal e de seu grupo, teima em não ver.

Como relatou o diretor, a história tem como um dos objetivos mostrar que figuras como McMahon são úteis ao sistema, o que vai ficar evidente de forma pouco sutil no final do filme, não sendo, de fato, autônomas em suas próprias trajetórias. Caminhando no fio da navalha, por vezes a obra tem um ritmo lento, se perdendo um pouco no didatismo excessivo e deixando uma estreita margem para interpretações diversas, o que enfraquece um pouco a história. Mas não chega a comprometer o resultado final, um retrato mordaz de uma guerra impossível de vencer. Qualquer semelhança com outras ações do governo dos EUA como a guerra à drogas, aliás, a qual muitos acreditam, como o general, que o problema seja a "dose" fraca da ação, não é mera coincidência.

Além de Brad Pitt, o elenco conta com Anthony Michael Hall, figura de filmes de John Hughes como Clube dos Cinco e Mulher Nota 1000, e protagonista da série O Vidente, um personagem essencial na trama, já que dá o suporte "bélico-psicológico" necessário ao protagonista. Outro ator celebrizado em um filme de Hughes, Alan Ruck (o Cameron de Curtindo a Vida Adoidado), faz Pat McKinnon, um dos funcionários do Departamento do Estado que antagoniza com o general. "Você não está aqui para vencer. Você está para limpar a bagunça", diz a certa altura. Sinceridade não falta aos personagens. Ao menos, no privado, nunca no público. Está aí o pecado capital de McMahon.



Máquina de Guerra (War Machine)
Estados Unidos (2017)
Diretor: David Michôd
Elenco: Brad Pitt, Tilda Swinton, Topher Grace, Will Poulter, Ben Kingsley, Anthony Michael Hall e Emory Cohen
Duração: 2h02
Cotação: 6/10
Disponível no Netflix


sábado, 20 de maio de 2017

Os Parecidos - filme mexicano com várias referências em um desenrolar comum

Isaac Ezban é um jovem diretor mexicano, de 31 anos, que se tornou célebre pelo filme O Incidente, feito em 2014. Um ano depois, filmou Os Parecidos (Los Parecidos), que denota seu apreço pela ficção fantástica, com diversas referências a gêneros, diretores e obras dos anos 60.

O filme se passa todo em uma estação rodoviária em 2 de outubro de 1968, dez dias depois de o México ter sediado os Jogos Olímpicos. O dia em si é mais simbólico ainda: foi quando ocorreu o Massacre de Tlatelolco, ocasião em que o governo do país comandou uma brutal repressão contra estudantes de diversas partes do país que protestavam na Plaza de las Tres Culturas. Há diversas versões para o número de vítimas daquele acontecimento, que muitos estimam entre 200 e 300 mortos, enquanto que fontes oficiais anotaram 40 mortos e 20 feridos.



Impossível não ver, ao final do filme, que tal pano de fundo não é à toa, e o filme também é uma parábola que se relaciona a isso. Mas tal referência não é essencial para ver Os Parecidos, que bebe direto na fonte de um dos principais seriados da televisão dos EUA no final dos anos 50 e parte dos 60, Twilight Zone, ou Além da Imaginação no Brasil. Desde a narração em off no início e no fim, passando pela própria natureza da narrativa, a obra de Ezban homenageia os anos 60 no próprio uso das cores, que variam de acordo com a situação dos personagens. Há também menções explícitas ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, com a trilha sonora sendo quase um personagem da história, e uma cena que remete ao clássico Psicose.

No início, um gerente de manutenção está preso em uma estação rodoviária esperando por um ônibus que vai até a Cidade do México, atrasado já há quatro horas em função da tempestade que atinge o local. No caso, é uma remissão direta a um episódio de Twilight Zone chamado Mirror Image, em que o cenário e a situação são bem semelhantes. Mas o desenrolar da trama é outro. Ao chegarem outras pessoas no local, alguns passam a sofrer desmaios e sintomas semelhantes a ataques epiléticos. E todos começam a especular (mais que investigar) aquilo que está acontecendo.

O clima de mistério e dúvida envolve quem assiste. Como nos filmes de suspense dos anos 60/70, em que você se debruça para saber qual o papel de cada personagem na trama, o espectador vê uma história na qual não sabe de pronto quem é o protagonista e o que de fato está por trás dos acontecimentos que se sucedem. A condução da direção, junto com a trilha sonora e a atuação segura do elenco, prende a atenção todo o tempo.

Os problemas começam justamente quando a origem dos fatos é desvendada. Além de ser uma solução que fica mais para o clichê do que para a referência/homenagem, a narrativa fica arrastada, algo óbvia, e o suspense, que era a tônica até então, dá lugar a um embate enfadonho. Algumas falhas de roteiro aparecem, mas isso não é o problema principal. A questão é que o filme parece ter acabado bem antes do fim. E com uma solução longe de ser das melhores.

Ainda que haja boas sacadas e momentos interessantes, Os Parecidos peca no principal e deixa a impressão de que ver um episódio do Twilight Zone talvez seja mais produtivo que ver o filme.

Os Parecidos (Los Parecidos)
México, 2015
Direção: Isaac Ezban
Elenco: Luis Alberti, Carmen Beato e Fernando Becerril
Duração: 1h27
Cotação: 5/10
Disponível no Netflix




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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Mercy (2016) – produção original do Netflix aposta no “parece mas não é”


“Por cinquenta dos meus 82 anos, de 6 a 8 horas por dia eu só ouvi queixas familiares. Ninguém conhece o lado sombrio da família melhor que eu. Sinto-me plenamente autorizado a falar mal dela, o que tem de ruim não está escrito. Ela é o eixo do conservadorismo, sim.” Era assim que o psicanalista José Angelo Gaiarsa, falecido em 2010, definia, em uma entrevista, sua experiência profissional relativa à família como instituição. Se ele tivesse assistido ao filme Mercy (2016), produção original do Netflix lançada mundialmente em 22 de outubro, certamente reforçaria sua visão.

O filme se inicia com a reunião de quatro filhos de Grace (Constance Barron), uma doente terminal, em tese para que se despeçam da mãe. Mas percebe-se logo que a ideia ali entre eles é discutir a questão da herança que ela deixará. O marido, George (Dan Ziskie), também demonstra ter preocupação com o dinheiro, fruto da morte do primeiro marido dela, pai de dois dos filhos de Grace.

Com esse contexto, durante quase meia hora o que se desenha é um drama familiar de caráter mais introspectivo. Os diálogos entre os personagens são secos, desprovidos de quase qualquer afeto, assim como suas reações à situação da matriarca. O cenário fica ainda mais complexo quando a família descobre uma maleta dada por um médico a George, que daria fim ao sofrimento de sua esposa.

O ponto de virada do filme acontece justamente depois dessa meia hora. A película se torna um suspense no qual o foco são mascarados tentando invadir a casa. O ritmo se torna mais rápido e a história até certo ponto é contada sob dois pontos de vista diferentes, com o objetivo de explicar o destino de cada um dos personagens principais.



Passados os 87 minutos, percebe-se que a verdadeira intenção do diretor Chris Sparling, que também é roteirista do filme, é mostrar ao espectador que ele, como é dito a certa altura para a namorada de um dos filhos, está enganado a respeito do que acontece. Quando esse tipo de narrativa é bem conduzido, tudo bem, mas quando não, quem assiste pode até se sentir ofendido com o rumo que a história toma…


Mercy (2016) tem um problema de origem de não saber o que quer apresentar além do “parece mas não é”. Quando tem a parte de drama, dá impressão de querer aprofundar a trama e apresentar os personagens de forma mais interessante. Mas logo entra a parte de thriller e praticamente não há tempo para existir qualquer envolvimento com os personagens do filme. Todos ficam com um aspecto quase caricato, superficial, até porque torná-los mais densos não é uma prioridade da produção.

Ao fim, a impressão que dá é que o importante é a “pegadinha”. Uma pena. Se você quiser assistir a uma boa produção original do Netflix, confira 7 Anos. Já Mercy é por sua conta e risco…

Mercy (2016)
Direção: Chris Sparling
Elenco: James Wolk, Caitlin FitzGerald, Tom Lipinski.
Nacionalidade: EUA
Duração: 1h27
Cotação: 4/10
Disponível no Netflix