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sábado, 20 de maio de 2017

Os Parecidos - filme mexicano com várias referências em um desenrolar comum

Isaac Ezban é um jovem diretor mexicano, de 31 anos, que se tornou célebre pelo filme O Incidente, feito em 2014. Um ano depois, filmou Os Parecidos (Los Parecidos), que denota seu apreço pela ficção fantástica, com diversas referências a gêneros, diretores e obras dos anos 60.

O filme se passa todo em uma estação rodoviária em 2 de outubro de 1968, dez dias depois de o México ter sediado os Jogos Olímpicos. O dia em si é mais simbólico ainda: foi quando ocorreu o Massacre de Tlatelolco, ocasião em que o governo do país comandou uma brutal repressão contra estudantes de diversas partes do país que protestavam na Plaza de las Tres Culturas. Há diversas versões para o número de vítimas daquele acontecimento, que muitos estimam entre 200 e 300 mortos, enquanto que fontes oficiais anotaram 40 mortos e 20 feridos.



Impossível não ver, ao final do filme, que tal pano de fundo não é à toa, e o filme também é uma parábola que se relaciona a isso. Mas tal referência não é essencial para ver Os Parecidos, que bebe direto na fonte de um dos principais seriados da televisão dos EUA no final dos anos 50 e parte dos 60, Twilight Zone, ou Além da Imaginação no Brasil. Desde a narração em off no início e no fim, passando pela própria natureza da narrativa, a obra de Ezban homenageia os anos 60 no próprio uso das cores, que variam de acordo com a situação dos personagens. Há também menções explícitas ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, com a trilha sonora sendo quase um personagem da história, e uma cena que remete ao clássico Psicose.

No início, um gerente de manutenção está preso em uma estação rodoviária esperando por um ônibus que vai até a Cidade do México, atrasado já há quatro horas em função da tempestade que atinge o local. No caso, é uma remissão direta a um episódio de Twilight Zone chamado Mirror Image, em que o cenário e a situação são bem semelhantes. Mas o desenrolar da trama é outro. Ao chegarem outras pessoas no local, alguns passam a sofrer desmaios e sintomas semelhantes a ataques epiléticos. E todos começam a especular (mais que investigar) aquilo que está acontecendo.

O clima de mistério e dúvida envolve quem assiste. Como nos filmes de suspense dos anos 60/70, em que você se debruça para saber qual o papel de cada personagem na trama, o espectador vê uma história na qual não sabe de pronto quem é o protagonista e o que de fato está por trás dos acontecimentos que se sucedem. A condução da direção, junto com a trilha sonora e a atuação segura do elenco, prende a atenção todo o tempo.

Os problemas começam justamente quando a origem dos fatos é desvendada. Além de ser uma solução que fica mais para o clichê do que para a referência/homenagem, a narrativa fica arrastada, algo óbvia, e o suspense, que era a tônica até então, dá lugar a um embate enfadonho. Algumas falhas de roteiro aparecem, mas isso não é o problema principal. A questão é que o filme parece ter acabado bem antes do fim. E com uma solução longe de ser das melhores.

Ainda que haja boas sacadas e momentos interessantes, Os Parecidos peca no principal e deixa a impressão de que ver um episódio do Twilight Zone talvez seja mais produtivo que ver o filme.

Os Parecidos (Los Parecidos)
México, 2015
Direção: Isaac Ezban
Elenco: Luis Alberti, Carmen Beato e Fernando Becerril
Duração: 1h27
Cotação: 5/10
Disponível no Netflix




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O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing That Lives in The House) - filme mais pretensioso que artístico

Amante a Domicílio (Fading Gigolo) – John Turturro celebra Woody Allen

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing That Lives in The House) - filme mais pretensioso que artístico

Produção original do Netflix que estreou no Brasil no último dia 28 de outubro, o filme O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing That Lives in The House) é o segundo longa do diretor Oz Perkins, filho de Anthony Perkins, imortalizado como Norman Bates do filme Psicose. Ele chegou a interpretar o mesmo papel do pai em Psicose 2 (1983), quando fez o assassino em seus 12 anos de idade.

Perkins seguiu em sua carreira de ator até 2010, quando estreou também como roteirista do filme Removal. Em 2014, também assinou como roteirista a película Dinheiro Sujo Cold Comes The Night e no ano seguinte estreou como diretor em The Black Coat’s Daughter (February), cujo roteiro também é seu. Para evitar problemas de distribuição que afetaram seu longa de estreia, conseguiu fechar com a gigante do streaming a produção de sua segunda obra.

I Am the Pretty Thing That Lives in the House conta a história de uma enfermeira, Lily (Ruth Wilson, de The Affair), contratada para ser cuidadora de uma antes famosa escritora de contos de terror nos anos 1960, Iris Blum (Paula Prentiss), a única moradora de uma antiga casa. Logo ela vai perceber que existe algo errado no local, chegando ao ponto de questionar se um dos livros escritos por Blum não traria uma história real, em vez de uma ficção.

O clima onírico, a mistura entre fantasia e realidade e a narração entrecortada, ora de Lily, ora da escritora quando jovem, poderiam fazer deste um filme bem acima da média para uma história com fundo banal e comum a muitas películas de terror. Mas muito cedo a narrativa se perde. O roteiro confuso coloca diante do espectador cenas excessivamente longas, onde o diretor parece querer valorizar a fotografia esquecendo da história em si, com outras, significativas, curtas demais. Mas não é a quebra de ritmo o que caracteriza o filme. Em seu todo, ele é arrastado (não confundir com "lento", já que muitos filmes com em esse tom são magníficos) e entediante.



Em função do clima reproduzido pela fotografia e a forma com que constrói a história, muitos compararam a obra de Perkins com algo da filmografia de David Lynch. Parece uma comparação inadequada, até porque os filmes do diretor de Cidade dos Sonhos têm ritmo e contam com detalhes que são importantes para as suas histórias, construídas de forma minuciosa. Em O Último Capítulo, mesmo a atmosfera e as narrações pretensamente poéticas parecem mais fruto de afetação do que arte em si. Ao contrário das obras de Lynch em geral, não consegue envolver quem assiste.

Como ponto positivo vale destacar a atuação de Ruth Wilson, em uma interpretação que tem pouquíssimo diálogos e muitas cenas que exigem uma expressividade que não falta à atriz.

O Último Capítulo (2016)
Direção: Oz Perkins
Elenco: Ruth Wilson, Paula Prentiss, Lucy Boynton.      
Nacionalidade: EUA
Duração: 1h27
Cotação: 4/10

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Amante a Domicílio (Fading Gigolo) – John Turturro celebra Woody Allen

A comédia dramática Amante a Domicílio (2014), disponível no Netflix, traz John Turturro no roteiro, direção e estrelando um filme em que revive uma parceria com Woody Allen, já vivida em Hannah e suas Irmãs (1985), mas agora com ambos em posições invertidas.

Um desavisado pode achar até que se trata de uma história de Allen, e não de Turturro, em seu quinto filme como diretor. As referências são inúmeras: desde o cenário onde se passa a história – um local judaico nos arredores do Brooklyn, em Nova Iorque – , passando pela trilha sonora repleta de jazz até o mais óbvio, a presença do diretor fazendo um papel que explora sua veia cômica. Ele aparece em cenas com suas tiradas habituais e também com ponderações recorrentes em sua filmografia, como quando fala a respeito da mortalidade com uma criança.

O filme começa com o fechamento da livraria de Murray (Woody Allen). Sem fontes de renda, ele tem a ideia de convencer seu amigo Fioravante (John Turturro) a fazer um ménage à trois com sua dermatologista Parker, vivida por Sharon Stone, que havia comentado com ele a respeito de seu desejo, e a amiga dela, Selima, personagem de Sofía Vergara (a Gloria Delgado-Pritchett de Modern Family). Assim, começa a trajetória de Murray como cafetão (o gigolô do título original) e de Fioravante como profissional do sexo.

A narrativa toma outra trajetória com a entrada em cena de uma viúva ortodoxa judia, Avigal, vivida por Vanessa Paradis. É a sua história particular responsável pelos momentos mais ternos do filme, nos quais ela luta contra sua própria trajetória, cuja sensualidade foi negada em nome da tradição. Um clichê, sem dúvida, mas que funciona bem muito por conta da bela atuação de Paradis.

O problema da película é o roteiro desigual de Turturro. Em alguns momentos as cenas são diretas, curtas, lembrando episódios de sitcons. Em outros, são mais densas, lentas, em especial quando envolvem Fioravante e Avigal. As separações rígidas na trama seguem nas sinas dos dois protagonistas. Enquanto Murray dá a Allen a possibilidade de exibir seu talento como ator de comédias, às vezes esquecido pelo seu trabalho como diretor, a parte “séria” do filme fica a cargo de Fioravante. Os lugares dos dois são severamente limitados quase o tempo todo.

O roteiro engessado seria menos problemático se bem costurado, mas a direção de Turturro não flui tão bem para tanto. Mesmo assim, além de cenas e situações divertidas, o filme se destaca pela força das personagens femininas. A descoberta de si mesma de Avigal e também a forma como são tratados o casamento infeliz de Parker e as frustrações de Selima (ainda que as duas últimas tenham um papel secundário na história).

Com defeitos, Amante a Domicílio consegue arrancar risos. Mas deixa a sensação de ser um filme menor de Woody Allen. Apesar de ser de John Turturro.

Amante a Domicílio (2014)
Fading Gigolo
Direção: John Turturro
Elenco: John Turturro, Woody Allen, Vanessa Paradis, Liev Schreiber, Sharon Stone, Sofía Vergara.
Duração: 90 minutos
Cotação: 6/10
Disponível no Netflix

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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Comédia argentina Delirium traz Ricardo Darín rindo de si mesmo

Você já deve ter escutado, quando se fala em cinema argentino, de diversas piadas sobre a suposta onipresença do ator Ricardo Darín nos filmes do país. No ano passado, o Sensacionalista tocou no tema com a notícia fake "Argentinos pensam em lançar primeiro filme sem Ricardo Darín".

Obviamente, trata-se de um exagero. Mas é fato que boa parte das películas de sucesso dos hermanos tem como protagonista o ator de filmes como O Segredo de Seus Olhos e O Filho da Noiva. Tendo como base isso, mas não só, o diretor Carlos Kaimakamian Carrau fez em seu filme Delirium uma comédia interessante, com diversos subtextos que satirizam o próprio cinema (ou "novo" cinema) do país.

A trama se desenvolve a partir da relação de três amigos, Federico, que trabalha em um pequena loja de conveniências; Martín, que vive de pequenos golpes, e Mariano, que distribui panfletos na rua. Cansados da vida que levam, começam a pesquisar uma forma de ganhar dinheiro fácil, chegando à conclusão de que o mais fácil seria fazer um filme para se tornarem milionário. O ator para fazer com que a película alcançasse sucesso e gerasse renda não poderia ser outro: Darín.


ricardo darin protagonista do filme delirium
Darín, em cena de Delirium (Divulgação)

Esse é o ponto de partida da típica comédia de erros onde a trajetória caótica vai gerando situações cada vez mais absurdas, com pouco compromisso com a verossimilhança. Em meio à história, uma crítica à própria indústria do cinema, em especial o argentino, com piadas que muitas vezes têm mais relação com o cotidiano do país vizinho. Um exemplo é a sequência que se passa no Innca (Instituto Nacional del Nuevo Cine Argentino), onde o alvo é o mecanismo de financiamento de produção de filmes na Argentina. Talvez não seja exatamente um problema só portenho...

A "sociedade de espetáculo" também é satirizada e, de certa forma, protagonista da história, já que também conduz o enredo, contando com a participação de outras figuras célebres como a apresentadora Susana Giménez, no papel de presidenta argentina, e do ator Diego Torres, entre inúmeros outros.

Um filme original e divertido, mas que não vai fazer você dar gargalhadas, certamente. Até porque é uma comédia que usa do humor sombrio para rir de si mesma, aspecto destacado no papel de Darín, que faz de si um personagem que, em certa medida, corresponde aos esteriótipos vendidos a respeito dos astros do cinema. Vale a pena ver.



Delirium (2014)
Diretor: Carlos Kaimakamian Carrau
Elenco: Ricardo Darín, Miguel Dileme, Ramiro Archain e Emiliano Carrazzone
Nacionalidade: Argentina
Duração: 1h25
Cotação: 6/10
Disponível no Netflix.