terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Filme mexicano Almacenados traz a falta de sentido do trabalho na vida de cada um

"O que você faz da vida?". Esta pergunta em geral é dirigida a alguém quando se quer saber em que ela trabalha, o que, nas sociedades ocidentais é praticamente o principal definidor da identidade de uma pessoa. O fato de a sua ocupação ser um sinônimo da forma como você "vive a vida" evidencia sua centralidade.

Cena de Almacenados


O filme Almacenados (2015) fala sobre isso, mas não só. É um confronto de gerações e de pensamentos aparentemente antagônicos mas que retratam a mesma realidade. Se o trabalho é tão crucial na vida de cada um, impedir que segmentos da população o acessem, como acontece não só em momentos de crise econômica mas também de forma crônica em algumas economias, é algo perverso. E a constante ameaça da falta de emprego, aliada a condições desiguais de educação e de possibilidades de escolher livremente o seu trabalho faz com que o trabalhador se agarre a qualquer oportunidade que apareça.

O cenário é comum em países em desenvolvimento como México. Na capital, o senhor Lino (José Carlos Ruiz) é um encarregado de um depósito de uma fábrica de hastes e mastros, sendo que o local no qual trabalha só recebe o segundo tipo de produto. A cinco dias de se aposentar, recebe o ajudante que irá substitui-lo, Nin (Hoze Meléndez).

Lino não quer se aposentar. Não que seu emprego seja excitante e maravilhoso, mas o modo como o encara e a forma com que explica suas funções para o aprendiz deixam a impressão de que aquilo, que preencheu durante 39 anos seu dia a dia, talvez seja justamente a única coisa que faça algum sentido em sua vida modesta. Daí surge o primeiro choque com Nin. O jovem não vê as funções descritas por seu chefe como nobres ou grandiosas, mas sim como banais, atreladas a um subemprego que paga pouco e não oferece nada além de condições de sobrevivência.

Esse conflito, em boa parte do tempo silencioso, se desenrola em meio ao embate entre dois pontos distintos não só sobre o trabalho, mas sobre a vida. Enquanto Lino busca atribuir sentido e importância ao cotidiano vivido de forma entediante durante quase quatro décadas, Nin é quem vai tentar trazê-lo à realidade não só do trabalho, mas da própria situação da empresa.

Durante quase todo o tempo, o cenário de Almacenados é o depósito onde quase nada (e quase tudo) acontece, preservando o ar teatral da peça original de David Desola, que também é roteirista da película. A condução do diretor Jack Zagha Kababie (Adiós mundo cruel e O Último Trago) traduz não apenas o cotidiano entediante de ambos em sua rotina como os distintos graus de desconforto entre os protagonistas nas cenas de conflito dissimulado e também aberto.

A evolução dos protagonistas durante a trama mostra ainda um necessário e cada vez mais em fala exercício da empatia, com um adentrando o universo do outro e se transformando por esta experiência. Contudo, também marca os limites da condição socioeconômica que, ao fim, nivelam em certo sentido os dois personagens em suas perspectivas e anseios, por mais diferentes que sejam suas personalidades. Almacenados é um ensaio sobre a natureza humana e o sobre o que o trabalho na sociedade capitalista moderna faz dela.

Confira o trailer oficial abaixo



Almacenados (Almacenados, 2015)
Direção: Jack Zagha Kababie
Elenco: José Carlos Ruiz, Hoze Meléndez.
Nacionalidade: mexicana
Duração: 1h32
Cotação: 8/10
Disponível na Netflix

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